Tabagismo no século XXI: problemas e consequências

Enviada em 18/10/2018

O papagaio Zé Carioca, criado pelos estúdios Disney na década de 40, era sempre retratado fumando um charuto. Tal hábito do personagem não se restringe apenas à ficção, uma vez que, no Brasil contemporâneo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são registradas cerca de 200 mil mortes por ano relacionadas ao tabagismo. De maneira análoga, é pertinente avaliar as causas que provocam esse déficit na saúde pública, entre elas a herança histórica-cultural de naturalização do fumo e a alienação do indivíduo.

Em princípio, é necessário compreender como as raízes ideológicas corroboram para essa problemática. Nessa lógica, nos anos 90, países como os Estados Unidos, através de propagandas e do cinema incentivaram diretamente a comercialização do tabaco — psicoativo usado na produção de cigarros, charutos e carimbos — ao inseri-los na mídia. Destarte, essa prática levou a uma “glamourização” do fumo, onde fumar, principalmente cigarros, era símbolo de status. Sob esse viés, Pierre Bordieu afirma que a sociedade participa de um ciclo vicioso de incorporação e reprodução de estruturas padronizantes. Seguindo essa etimologia, o ato de fumar ser apresentado como “natural” pelo coletivo provocou aceitação e consentimento individual nas pessoas.

Ademais, é notório uma alienação do indivíduo em relação à essa temática. Nesse ínterim, apesar de o Brasil ser considerado referência mundial na luta contra o tabagismo, 80% dos fumantes inicia o exercício antes dos 18 anos e perdura esse hábito para o resto da vida, de acordo com dados da OMS. Dentro dessa lógica, tal porcentagem pode ser explicada pela evasão da realidade descrita por Bauman em suas obras: a sociedade, por meio de mecanismos como o cigarro, procura formas de se distanciar da monotonia e do estresse diários. Consequentemente, pelo fato de, no Brasil, o cigarro ser uma droga lícita e ser amplamente ofertada, essa “fuga” pode se tornar perigosa, pois pode acarretar na dependência química da nicotina.

Fica evidente, portanto, que a naturalização e a falta de consciência do indivíduo são as principais causas que impedem a retenção do tabagismo no cenário nacional. É mister que, primeiramente, o Ministério da Saúde amplie o tratamento nos postos de saúde para os viciados, aumentando o número de profissionais para atuar na área, além de oferecer apoio psicológico aos mesmos. Não obstante, é imprescindível que o Ministério da Educação insira, dentro da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), o estudo do tabagismo como doença nas salas de aulas, para que os jovens possam desenvolver um pensamento crítico sobre o assunto e possam conhecer os riscos que ele oferece aos praticantes. Assim, o hábito de fumar no Brasil poderá voltar a ser apenas ficcional.