Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado
Enviada em 04/10/2021
No filme Joker, de 2019, protagonizado por Joaquim Phoenix, aborda-se o desenvolvimento psicológico de Arthur Fleck: vítima de transtornos mentais, isolado e subjugado por uma sociedade preconceituosa até culminar na explosão de seus anseios maléficos, contidos em sua mente, de forma a transformar-se no Coringa. De maneira análoga, fora da ficção, a realidade brasileira para com a saúde mental e a importância da cultura de autocuidar-se é tão problemática quanto na obra. Dessa forma, aos moldes sociais, cria-se uma massa de indivíduos que sofrem problemas psíquicos não só pelos laços afetivos cada vez mais fracos, mas também pela banalização deles e do autocuidado.
Nesse cenário, a princípio, no livro “Modernidade Líquida”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, mostra-se como as relações atuais são frágeis, fugazes e maleáveis, semelhante aos líquidos. Paralelamente, essa liquidez nos relacionamentos é uma das principais causas das dificuldades ligadas ao bem-estar da mente, uma vez que, pela instabilidade das interações, são feitas rupturas socioemocionais, as quais impedem os afetados de interagirem socialmente, construindo barreiras como a baixa autoestima e a depressão. Logo, vê-se imprescindível o hábito de cuidar de si mesmo, com a finalidade de entender-se enquanto ser e de amenizar os problemas externos, ao previnir-se — mas não isolar-se — do convívio social nocivo à mente humana em suas mais variadas esferas.
Ademais, a naturalização dos problemas relacionados à saúde mental faz deles ainda mais complicados de serem amenizados, como analisado pela filósofa francesa Simone de Beauvoir, ao considerar que, ao tratá-los como banais, gera-se uma prisão que impede a sociedade de fugir deles. Nesse sentido, a ignorância dessas adversidades, pelo próprio estigma associado a elas, faz delas ainda mais dificultoso o trabalho de combatê-las, ao passo que a cultura do autocuidado fica inerte no corpo social cada vez mais egoísta a se transmutar e a ser passível de progresso quanto à sua conduta. Dessarte, entende-se a problemática como uma questão que deve ser analisada particularmente, visto que o comportamento individualista se reflete em toda instância coletiva.
Portanto, para a resolução da adversidade, faz-se mister a ação conjunta do Ministério da Saúde, mediante a um acordo público-privado com alguma desenvolvedora de Inteligências Artificais (IAs), na elaboração de um aplicativo que, por meio da IA, entreterá o usuário através de conversas pertinentes, de modo a fazer, em paralelo, um diagnóstico do indivíduo. Isso, a fim de estimular o costume do autocuidado e ajudar no controle de sua saúde mental, bem como no seu possível direcionamento a um especialista adequado — como um psicólogo —. Assim, histórias como a de Arthur Fleck se distanciarão mais ainda da realidade e permanecerão somente na ficção.