Saúde mental e a importância da cultura do autocuidado

Enviada em 01/09/2020

No poema “Quando me amei de verdade, Charles Chaplin exalta os benefícios da prática intitulada, revelando a plenitude derivada dessa. Embora o pensamento do dramaturgo esteja de acordo com a importância do autocuidado, esse não é, comumente, aplicado ao todo. Sendo assim, é fulcral reconhecer que, apesar do benefício desta, a prática de cuidar de si é barrada pela tendência hodierna de utilitarismo.

Primeiramente, urge que se estabeleçam as diversas facetas da expressão do autocuidado e como essas atingem diferentes esferas da vida humana. Nessa sequência, ao conceituar-se o ato de cuidar-se pode-se inferir que esse busca o autoconhecimento, ou seja, a consciência de vontades, bem como de deveres e pontos a melhorar, em vista disso, seja pontuando suas qualidades ou estabelecendo defeitos, o indivíduo atinge a melhor face de si. Ademais, além das múltiplas manifestações, que vão desde uma prática física ao sono regulado, o autocuidado é refletido nas ações do ser (mais confiantes) e torna-se crucial no cuidado com a saúde, através, por exemplo, do autodiagnóstico do câncer de mama, entre outros. Em suma, a partir da atitude o indivíduo atinge o bem-estar e maior qualidade de vida e embora, tal como defende o filósofo Kierkegaard, “ser sujeito é estar sujeito à ansiedade e angústia”, decerto o autocuidado propicia bons momentos e é tão relevante quanto defende Chaplin.

Em segundo plano, é impetuoso classificar os entraves direcionados à prática do autocuidado. Nesse sentido, evidenciam-se o hábito e o cotidiano, dois expoentes da contemporaneidade, como determinantes para as barreiras impostas. Isso porque, segundo a visão de Hannah Arendt, atualmente valoriza-se o útil demasiadamente e, assim, para atender as expectativas materialistas de um capitalismo que as estimula, o ser mergulha em uma vida rotineira. Destarte, o bem-estar é posto em segundo plano em relação ao trabalho e estudos, uma vez que aquele é visto como irrelevante e inútil e, assim como caracteriza Martin Heidegger, o ser entra em “decadência”, isto é, apenas repete a tendência mundial de despreocupação com a qualidade de vida.

Portanto, a fim de preservar a saúde mental derivada do cuidado próprio, medidas podem ser tomadas. Para tanto, além da relevância do agir cidadão, o Ministério da Saúde deve divulgar, através de cartazes em lugares de fácil acesso (como em postos) e de propagandas com linguagem casual, para combate do rigor técnico usado em mensagens desse viés, a premência do autocuidado e maneiras de realizá-lo. Desse modo, a necessidade desse feito poderá ser introduzida em uma sociedade mecânica em seus atos e que ainda não se ama de verdade.