Riscos de compartilhar mentiras e boatos na internet

Enviada em 08/04/2020

Toda verdade pode ser editada. Essa é a premissa que permeia o Ministério da Verdade, órgão do regime totalitário da sociedade distópica descrita na obra 1984, do jornalista George Orwell, e que tem como finalidade modificar as informações para controlar o pensamento das pessoas, impedindo-as de ter uma visão crítica sobre a sua realidade. Entretanto, os impasses que tangem essa alteração não se limitam à ficção, posto que, no Brasil, a disseminação de notícias falsas por meio da internet tem colocado em risco a população e propiciado o surgimento de variados problemas. Por esse prisma, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que envolvem essa questão no país.

Inicialmente, vê-se que o poder público tem se apresentado omisso no combate à propagação de boatos na internet. O Brasil é, segundo o relatório “Internet Trends”, o quinto país mais conectado do mundo, porém há uma deficiência no processo de fiscalização sobre essa ferramenta, o que faz com que pessoas com intenção de manipular outras, para benefício próprio ou apenas para instaurar o caos, tenham um meio propício para propagar as “fake news”, que podem gerar impactos diversos, como por exemplo, influenciar as intenções de voto em uma eleição. Sendo assim, vê-se que o governo não tem garantido o bem-estar de toda a coletividade, demonstrando, com isso, a ruptura dos preceitos estabelecidos na Constituição Federal de 1988 que garante a todos o direito à informação.

Além disso, comprova-se que aceitar a propagação de mentiras na internet é naturalizar o mal. Prova disso é crescimento de movimentos que refutam comprovações científicas com opiniões e suposições, sem nenhum embasamento técnico ou científico, citando caso análogo têm-se o movimento antivacina, que é atualmente um problema de saúde pública por fazer ressurgir no Brasil doenças já erradicadas, como o sarampo. Todavia, parte da sociedade tem apresentado certa apatia diante dessa problemática. A banalização desse mal pode ser elucidada tomando como base as reflexões filosóficas de Hannah Arendt já que, segundo ela, a massificação cultural faz com que as pessoas aceitem quadros negativos sem questionar.

Convém, portanto, ressaltar que a disseminação de notícias falsas e seus riscos devem ser combatidos. Para isso, é necessário que a sociedade exija do Estado, mediante debates em audiências públicas, a ampliação da fiscalização na internet, objetivando, com isso, a punição de quem criar e propaga boatos. Ademais, deve haver conscientização da população, através de campanhas midiáticas promovidas pelo Ministério da Cidadania, sobre a necessidade de não adotar uma postura apática perante a prática de divulgação de notícias mentirosas na internet. Desse modo, a manipulação da informação e suas consequências poderiam ficar restrita à obra ficcional de George Orwell.