Preconceito Linguístico

Enviada em 10/09/2020

Jean-Paul Sartre, em sua obra “O Existencialismo é um Humanismo”, propõe a liberdade e a responsabilidade social como condições intrínsecas à existência humana. Segundo o filósofo existencialista francês, os indivíduos livres são dotados de consciência e, portanto, responsáveis por suas ações diante do corpo social. Essa ética da responsabilidade sartreana deve ser considerada na análise da questão do preconceito linguístico. A esse respeito, pode-se afirmar que a diversidade linguística presente no Brasil é desconsiderada, ao passo que se cobra uma norma-padrão de modo enrijecido e desprovido de tolerância em relação àquilo que difere do modelo imposto.

Com efeito, a linguagem, como fenômeno social, auxilia o homem a ver o mundo de modo mais crítico e criativo. Em sua dimensão estética e reflexiva, torna-se, ainda, ferramenta de diálogo e exercício da diferença, contribuindo para conter a barbárie de um mundo massificado. Nesse sentido, a variação linguística tem um papel fundamental na construção de uma ordem democrática e justa à medida que proporciona a interação e aproximação entre indivíduos das mais variadas regiões do país e classes sociais, além de promover a abertura de um canal de expressão das subjetividades. Paradoxalmente, entraves como o preconceito linguístico em relação às variantes linguísticas consideradas menos prestigiadas, afetam profundamente essa condição, a exemplo da mídia que sistematiza preconceitos através de filmes e novelas que produzem estereótipos de personagens, os quais não detém conhecimento da norma-padrão e, assim, são inferiorizados . Esse cenário fere o preceito de responsabilidade social proposto por Sartre.

Por conseguinte, o desrespeito às diferenças linguísticas existente no Brasil é responsável por episódios de intolerância e segregação social, a exemplo do médico que publicou uma foto em suas redes sociais, na qual satirizava um paciente pelo fato de o mesmo não escrever de acordo com a norma-padrão imposta. Somado a isso, deve-se considerar que a erudição presente na Constituição Federal, por exemplo, restringe o acesso à cidadania, uma vez que o domínio da linguagem culta é de posse da minoria da população brasileira.

Logo, fica clara a necessidade de ações que caminhem na direção da ética responsável proposta por Sartre. Para tanto, faz-se necessário que o Governo Federal crie núcleos de acompanhamento de combate ao preconceito linguístico. Por meio desses núcleos, cabe ao Governo Federal viabilizar iniciativas educacionais, como oficinas de valorização da diversidade linguística, as quais desconstruam o mito do monolinguismo, com a finalidade de promover reflexão acerca desse tema. Essas ações podem conduzir a população no caminho de uma sociedade mais ética e responsável.