Preconceito Linguístico

Enviada em 31/10/2019

A língua falada no Brasil atualmente remonta ao período de colonização e à forte imposição do idioma, da cultura, da religiosidade e do estilo de vida dos portugueses. Desde então, houve a supressão de características desviantes do que era considerado o padrão. Não obstante o português brasileiro seja fruto de uma combinação entre línguas indígenas, africanas e europeias, sendo marcado também pela sua diversidade estrutural e de sotaques, nota-se a ocorrência de preconceitos linguísticos que impactam de forma opressora alguns grupos que não tiveram acesso à formação da gramática normativa ou até mesmo que apresentam qualquer diferença do padrão prevalecente.

Primeiramente, vale ressaltar que esse assédio linguístico é incoerente com a própria história do idioma lusitano, que provém do latim considerado vulgar, isto é, popular. Tal característica se observa até mesmo no idioma inglês, cuja variação britânica é, por muitos, considerada superior às demais. Sob esse prisma, é interessante notar a importância da obra de alguns autores do Modernismo no Brasil, que procuraram valorizar o uso da linguagem coloquial, das variações linguísticas e dos relatos cotidianos, conferindo-lhes a devida importância para a nação. Posto isso, entende-se que o preconceito linguístico configura etnocentrismo e desconhecimento do processo de construção e remodelação de uma língua conforme cada contexto.

Ademais, cabe salientar que o prestígio de determinadas variações linguísticas em detrimento de outras consiste em ferramenta para dominação social e manutenção das segregações já existentes. Isso porque os indivíduos que tiveram acesso a maior grau de escolaridade se sobressaem em diversos contextos por meio do uso correto da gramática normativa, reforçando a lógica meritocrática. Logo, querer impor atualmente uma normativa como sendo superior equivale a negar o fato de que a língua é viva e passível de variações, assim como seus falantes.

Portanto, vislumbra-se a importância de derrubar as hierarquizações da língua e suas variações, bem como valorizá-las em suas idiossincrasias. Destarte, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com as instituições de ensino superior no país, a atuação em ações que reformulem os cursos de letras no sentido de conscientizar os futuros professores sobre tal temática, para que seja transmitido aos alunos a importância do respeito aos mais variados registros da língua. Além disso, é essencial que a mídia divulgue as variações da língua em horário nobre e em programas de grande repercussão nacional, como os telejornais, de forma a estimular o respeito à diversidade. Assim, uma educação de qualidade poderá alcançar mais cidadãos e o uso da norma culta como forma de dominação poderá ser satisfatoriamente superado.