Preconceito Linguístico

Enviada em 05/05/2019

Construção

“E vão fazendo telhados”. É assim que Oswald de Andrade - poeta modernista - encerra ironicamente o poema “Vício da fala”. Nele, há fortes críticas sobre a excessiva valorização da gramática normativa, fruto do eurocentrismo português que ainda persiste. Nesse sentido, é necessário reconhecer os impactos da colonização e a manutenção dos estereótipos daquele período nas manifestações de preconceito linguístico no Brasil.

Primeiramente, é preciso compreender que esse problema possui raízes nas políticas adotadas pela Coroa Portuguesa. Para se ter ideia, hoje o Brasil possui quase 300 línguas diferentes e somente duas são consideradas oficiais: o português e a libras. Com isso, é evidente que na colonização a cultura e o idioma dos nativos foram suprimidos. Logo, o padrão eurocêntrico foi consolidado e, mesmo após anos, perpetua-se a ideia que somente a norma culta, nos moldes portugueses, é correta.

Além disso, a sociedade e a escola reforçam esse estereótipo associando as variações linguísticas como inferiores, o que aumenta a discriminação. Isso ocorre, pois, a língua não é uma unidade e sim um conjunto de diferenças regionais, sociais e econômicas. Ao ser imposta, a gramática normativa - mesmo que seja a oficialmente correta - exclui as demais possibilidades do português falado no Brasil. Assim, os quase 14 milhões de analfabetos (Censo IBGE de 2010) e seus familiares são segregados socialmente, na escola, no modo de falar e no convívio social.

Fica claro, portanto, que o preconceito linguístico fere a igualdade constitucional e tem causado prejuízos na sociedade. Desse modo, o Ministério da Educação, em parceria com as Escolas e as Universidades, deve discutir a temática em sala de aula, a fim de reconhecer e conscientizar que a língua é mutável. Ademais, o poder Legislativo e o Judiciário precisam coibir os atos de intolerância com a aplicação e melhoria da legislação. Assim, continuaremos “fazendo telhados” com mais tolerância e a certeza que a língua está em constante construção.