Preconceito Linguístico
Enviada em 31/10/2018
Em meados do século XVII, a catequização dos índios pelos jesuítas era caracterizada não somente pela imposição do catolicismo às populações nativas do Brasil, mas também da sobreposição da língua portuguesa sobre as variantes do tupi-guarani, pronunciado pelos indígenas. Hodiernamente, esse processo de dominância e imposição dos anseios de uma minoria economicamente superior ocorre, também, no lecionamento da gramática normativa em instituições de ensino por todo o país, assim como no movimento parnasianista, cuja preocupação era, basicamente, estética, o que contribuiu para a fixação da ideologia de que o uso da língua portuguesa se limitava a uma única norma, desprezando-se as variantes linguísticas.
Primeiramente, após a crise econômica de 1929, o excedente da produção cafeeira foi, progressivamente, substituído pela indústria, o que centralizou os investimentos em educação na região sudeste do país, sobretudo, em São Paulo. Assim, as demais regiões, desprovidas de estruturas básicas de ensino, desenvolveram variantes linguísticas que se adequaram à sua realidade. No entanto, seu uso, considerado inadequado pela obrigatoriedade da norma culta que vigorava no país até a metade do século XX, despertou na população um caráter segregacionista, tal qual o regime Apartheid, na África do Sul, considerando inferiores as classes populacionais que não a dominavam. O que, segundo a linguista Marta Scherre, caracteriza a depreciação das variedades associadas a grupos de menor prestígio social.
De maneira semelhante, a transmissão de conhecimentos meramente gramaticais, pelas instituições de ensino, vai ao encontro da concepção Bourdieusiana, uma vez que essa limitação não desperta, nos discentes, o senso crítico acerca da valorização da diversidade linguística no país. Ocorre, assim, o desmerecimento de todos os processos históricos que, por meio da miscigenação entre diferentes culturas, originou a diversidade cultural da população brasileira. Consoante Lavoisier que, em sua célebre frase, destacava as constantes transformações da matéria, a língua portuguesa se reinventa, sendo necessária a compreensão de seus falantes à respeito de sua heterogeneidade.
Portanto, indubitavelmente, o Ministério da Educação deve investir, por meio de materiais didáticos que destaquem a diversidade de expressões no Brasil, na criação de eventos culturais, como teatro, assim como na diversificação dos processos didáticos de ensino, para que seja despertado na classe estudantil, como um todo, o respeito a todas as variantes linguísticas do país. Cabe, também, ao Ministério da Justiça, informar a população sobre o preconceito linguístico e suas consequências, por meio da distribuição de panfletos e cartazes, para que seja mitigado e a igualdade linguística prevaleça.