Preconceito Linguístico
Enviada em 31/10/2018
Desde o iluminismo, entende-se que uma sociedade só progride quando um se mobiliza com o problema do outro. No entanto, quando se observa os desafios para se combater o preconceito linguístico, no Brasil, hodiernamente, verifica-se que esse ideal iluminista é constatado na teoria e não desejavelmente na prática e a problemática persiste intrinsecamente ligada à realidade do país. Nesse sentido, convém analisar o contexto histórico envolvido na gênese de tal mazela e a uma de suas consequências na sociedade.
Primeiramente, é indubitável que a questão constitucional e a sua aplicação estejam entre as causas do preconceito linguístico no país. Segundo o filósofo grego Aristóteles, a política deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga, é possível perceber que, no Brasil, desde seu descobrimento, a influência de outras culturas sobre a população brasileira rompe essa harmonia, haja vista que com a chegada dos jesuítas, os mesmos impuseram sua cultura, crença e educação aos nativos. Dessa forma, a depreciação dos costumes e das variedades linguísticas no país se perpetuou pela história, e torna-se urgente que a visão da população seja transformada quanto a essa problemática e o princípio da isonomia presente no Artigo 5 da Constituição Federal seja respeitado.
Além disso, faz-se mister, ainda, salientar que a diversidade cultural presente no território nacional faz com que determinados cidadãos sejam discriminados por pertencerem a uma determinada região. De acordo com Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, a falta de solidez nas relações sociais, políticas e econômicas é a característica da “modernidade líquida” vivida no século XXI. Diante de tal contexto, não é surpreendente que grande parcela da população venha a tratar os nordestinos, por exemplo, como seres atrasados e grotescos, uma vez que novelas veiculadas nos principais canais de televisão tratam os mesmos de forma semelhante, sendo motivo de riso e escárnio.
É evidente, portanto, que ainda há entraves para garantir a solidificação de políticas que visem a resolução do preconceito linguístico no Brasil. Destarte, o Ministério da Cultura deve fomentar, no meio artístico, a produção de novelas e minisséries que retratam a importância dos diversos tipos de linguagem presentes no país como forma de preservar a identidade nacional, e assim, fazer com que a população valorize e respeite a forma de falar de cada brasileiro. Como já dito pelo pedagogo Paulo Freire, a educação transforma as pessoas, e essas mudam o mundo. Logo, o Ministério da Educação deve instituir, nas escolas, palestras ministradas por professores de língua portuguesa e pedagogos, que discutem o combate ao preconceito linguístico, a fim de que, mudando a visão das pessoas, a sociedade seja transformada, como se percebe no olhar poético de Ferreira Gullar.