Preconceito Linguístico
Enviada em 31/10/2018
O desenvolvimento de códigos linguísticos complexos é uma peculiaridade significativa da história da espécie humana. Essa estruturação, entretanto, deve ser entendida como ininterrupta, na qual novas características são agregáveis e antigas, mutáveis, de acordo com os contextos históricos, com a cultura e com a classe dominante. Ao tratar do contexto brasileiro, esses aspectos fazem com que a norma culta da língua portuguesa assuma uma posição de destaque, o que compromete e segrega socialmente aqueles que não a dominam amplamente pela ocorrência do preconceito linguístico. Esse fato deve ser combatido, por meio de políticas educacionais e do entendimento da função linguística.
Em primeira análise, é importante salientar que muito desse preconceito tem raízes ainda na infância, pois há uma deficiência no ensino das variações da língua portuguesa às crianças e aos adolescentes. Essa deficiência advém da persistência dos planos de desenvolvimento educacional em ensinar apenas a norma culta do português, o que enrijece a mentalidade dos mais jovens quanto às outras formas, igualmente corretas, de falar e de escrever, uma vez que esses indivíduos absorvem a ideia de que só é adequado aquele que se expressa de acordo com a suposta impecabilidade da norma padrão. Assim, permitir que essa ideologia que só valoriza o português culto persista nos ambientes escolares é equivalente a reforçar o preconceito frente a outras formas de usar a língua.
Ademais, também é válido ressaltar que a principal função da língua é garantir a comunicação entre os indivíduos. Dessa forma, ainda que uma pessoa seja incapaz de se expressar nos moldes da norma culta, o seu uso deve ser entendido como correto, pois ela é apta a se fazer compreendida por outrem. Assim, por mais que diferentes formas de usar a língua possam ser configuradas como mais adequadas de acordo com contextos distintos, um indivíduo jamais pode sofrer preconceito linguístico, pois domina as bases do código daquela língua, além de ser capaz de se comunicar. Esse fato reitera a máxima de Fernando Pessoa, que afirma que “a língua fez-se para que nos sirvamos dela”.
Diante do contexto problemático acerca do preconceito linguístico, urgem medidas para que tal problema seja mitigado. O MEC, em parceria com pesquisadores linguistas e pedagogos, deve alterar os planos de desenvolvimento educacional, para que as escolas e os professores possam incluir na educação dos mais jovens o ensino de outras variantes da língua, de modo que esses indivíduos em formação intelectual desenvolvam o pensamento de que é errado segregar e tomar como incorretas as formas de expressão que não estejam encaixadas na norma padrão. Dessa maneira, é possível que a língua seja compreendida como uma entidade em constante transformação, que reflete a cultura e a identidade dos povos, e que, por essas razões, todas as maneiras de utilizá-la devem ser respeitadas.