Preconceito Linguístico

Enviada em 30/10/2018

Discurso de ódio

Na obra regionalista “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, o protagonista Fabiano encontra dificuldade em se comunicar, pois não consegue se expressar em palavras e possui baixa escolaridade. Em decorrência disso, ao se comunicar com o senhor Tomás da Bolandeira, evidencia, assim, a discrepância entre a linguagem que as classes distintas apresentam e como essa divergência auxilia na desigualdade social. Dessa forma, é importante a discussão acerca dos efeitos do preconceito linguístico na sociedade e as possíveis soluções para esse quadro.

Em primeira análise, durante o descobrimento do Brasil pela colônia lusitana houve um intenso choque linguístico, visto que o idioma português e as inúmeras línguas indígenas se diferiam, não só nos dialetos, como também na gramática. Desde então, o português falado no país adaptou-se, a fim de proporcionar praticidade na comunicação, além de ser composto pelos idiomas oriundos dos imigrantes, dos nativos e dos africanos, devido à miscigenação característica do processo de colonização brasileiro.

Todavia, a discriminação com a ausência do uso da gramática normativa na fala e com o emprego abundante de gírias é um efeito negativo da diversidade linguística dentro do território, além de ser reflexo de outros preconceitos sociais e econômicos. Nesse contexto, é importante ressaltar que o sotaque e gírias, que são tão estereotipados e depreciados no contemporâneo, representam a cultura e os costumes de cada região. Outrossim, cabe destacar que uma língua possui diversas variantes, que se relacionam de acordo com o nível de formalidade, ou seja, a fala não se restringe a norma culta, diferente do que é difundido nas escolas e na mídia. Além disso, essa, em vez de apenas cumprir seu papel na comunicação, serve como uma ferramenta de segregação, além de ser um meio de propagar e manifestar o preconceito.

Em suma, é fundamental que o Ministério da Educação crie um programa de palestras, em escolas públicas e privadas, ministradas por linguistas que visem conscientizar os estudantes sobre a importância das variantes do português e de suas variações regionais. Ademais, cabe à mídia introduzir o linguajar das diversas regiões e as gírias em seus materiais, propagandas ou novelas, por exemplo, com a finalidade de demonstrar que não existe uma variação padrão na língua portuguesa falada. Deste modo, é possível desenraizar a soberania do capital linguístico, definido pelo sociólogo Pierre Bourdieu como sinônimo de poder, pertencente às classes mais altas da população, e, assim, possibilitar a valorização da diversidade no país.