Preconceito Linguístico
Enviada em 30/10/2018
Autofagia
Sob a ótica do sociólogo Émile Durkheim, em seu conceito de solidariedade orgânica, a pluralidade de estruturas sociais viabiliza a harmonia.Todavia, a questão do preconceito linguístico é antagônico a essa prerrogativa sociológica, dado que a depreciação de dialetos regionais pela mídia somado a secundarização da mensagem de classes sociais, busca abolir a multiplicidade da linguagem.Nesse contexto, cabe analisar os elementos que nutrem essa atrocidade.
É imprescindível destacar, de início, o auxílio midiático a instauração da marginalização de vertentes da Língua Portuguesa.A cultura de hierarquia social que permeia o país desde a época colonial e que sobreviveu na república coronelista ainda é presente nos dias de hoje.Esse fato se reflete na manutenção de uma mídia televisiva que valoriza os sotaques do eixo Sul-Sudeste em suas programações e deprecia o de outras regiões.Dessa forma, é amplificado uma visão discriminatória que prejudica a avaliação em entrevistas de emprego e a autoestima identitária do cidadão.
Outrossim, além de fator regional, as diferentes classes sociais são abarcadas pelo preconceito.Na perspectiva do escritor José Saramago, em sua obra “Ensaio sobre a Cegueira”, “Penso que estamos cegos, cegos que vêem”.Dentro dessa lógica, é orquestrada a realidade comunicacional dos grupos sociais que não obtiveram condições financeiras de deter um ensino adequado, visto que a relevância de seu discurso não é enxergado por uma noção focalizada em erros gramaticais.Nesse cenário, a mensagem de uma parcela da sociedade é menosprezada, o que produz o receio e a inibição de se expressar e expor ideias.Assim, mesmo com a existência do princípio de igualdade na Constituição de 1988, o preconceito linguístico continuará enquanto a consciência da sociedade permanecer inertes.
Fica nítido, portanto, que distante do ideal de Durkheim, vive-se uma tendência de homogeneizar ao invés de valorizar a pluralidade.Nesse prisma, é vital que a mídia televisiva arquitete campanhas publicitárias e ficções engajadas, como novelas, que demonstrem a riqueza de sotaques do país para arrefecer a hierarquia Sul-Sudeste.Ademais, que o Ministério da Educação unido à ONGs, como a “Comunicação e Cultura” ,que realiza atividades lúdicas nas escolas em busca da formação de respeito com o outro, forneçam palestras e a criação de aulas na grade curricular sobre a construção da empatia e reconhecimento sobre todas as formas de comunicação, para reproduzir uma geração que respeite a linguagem de qualquer eixo social.Com esses atos, a autofagia, termo biológico referente à destruição, da manutenção da discriminação linguística irá ocorrer.