Preconceito Linguístico
Enviada em 29/10/2018
Como se sabe, o Brasil é um Estado Democrático de Direito e, portanto, está teoricamente consonante com a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, que em seu primeiro artigo assegura o tratamento igualitário a todo indivíduo. Contudo, a permanência de uma visão retrógrada e preconceituosa acerca das variações linguísticas que diferem da Norma Culta tem impedido uma grande parcela da população brasileira de usufruir desse direito fundamental. Assim, a continuidade de conceitos discriminatórios aos falantes de códigos diversos se constitui como um infortúnio social.
Em primeiro plano, é essencial salientar a ineficiente atuação dos meios acadêmicos no combate ao preconceito linguístico. Ainda que na última década as escolas tenham começado a valorizar a diversidade de modos para se comunicar, a posição intransigente que antes era adotada e desprezava os contextos comunicacionais ainda está incrustada no imaginário do país. A título de ilustração, pode-se citar o escritor modernista Oswald de Andrade, que em seu poema “Pronominais” já criticava o desprezo dirigido pela Literatura comum ao modo de falar próprio da população nacional.
De outra parte, é perceptível que a persistência da discriminação linguística é uma estratégia de dominação utilizada por uma pequena porção de brasileiros privilegiados em sua formação educacional . Com isso, é corroborada a teoria do sociólogo francês Michel Foucault, que afirma que a língua é dotada de mecanismos que podem realizar uma coerção social apenas se baseando em aspectos simbólicos. Como exemplo, é possível mencionar o caso do médico brasileiro que ridicularizou a grafia incorreta de uma doença realizada por sua paciente.
Por conseguinte, é notório que o preconceito direcionado a diversidade de códigos linguísticos deve ser mitigado iminentemente. Nesse sentido, a Academia Brasileira de Letras, em parceria com o Ministério da Educação, deveria por meio de publicações em mídias sociais e da escola, incentivar o respeito a variedade de “falares” e uma literatura diversificada. Tal iniciativa teria a finalidade de exortar a importância das variações diatópicas e diastráticas em detrimento do puro preciosismo padrão. Dessa forma, haveria reconhecimento da pluralidade e se estabeleceria uma cultura inclusiva.