Preconceito Linguístico
Enviada em 29/10/2018
Na história em quadrinhos “A Turma da Mônica”, criada pelo cartunista Maurício de Souza, o personagem Chico Bento é detentor de uma forma de falar típica do homem do campo, estuda e convive harmoniosamente com as outras crianças. No Brasil, no entanto, a situação vivida na literatura não se repete, uma vez que o preconceito linguístico está ligado aos diferentes modos de se exprimir como, gírias, regionalismos e condição social e causam, portanto, discriminação e exclusão social. São fatores que contribuem para essa problemática as práticas escolares em consonância com a extrema valorização da gramática normativa.
Primeiramente, o preconceito linguístico decorre, principalmente, do modelo educacional vigente. Isso se dá porque a escola sempre foi muito autoritária e, consequentemente, qualquer manifestação diferente é considerada erro, e a pessoa é reprimida, censurada, ridicularizada. Segundo Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira, “o autoritarismo é uma das características centrais da educação no Brasil”. Nesse sentido, as ideias do autor da “pedagogia do oprimido” corroboram a situação observada nas instituições de ensino do país, uma vez que a sociedade plural, formada à partir de diversas matrizes étnicas, as quais eram detentoras de idioma e cultura próprios, são submetidas a nefastas regras de imposição de padrões rígidos e a obsessão por verdades absolutas.
Além da questão educacional, a discriminação às díspares variações da língua, é fomentada pela seleção de uma forma de falar típica da elite. Consequentemente, a referência do que vem de cima do poder - das classes dominantes - cria aos falantes das variedades de língua sem prestígio social um complexo de inferioridade. Isso acontece porque ao mesmo tempo em que as camadas sociais que dominam a sociedade dizem que é preciso impor o padrão linguístico para todos, elas não permitem às classes dominadas o acesso à ele. Isso é o que Pierre Bourdieu chama de a “língua legítima”: as pessoas reconhecem o modo de falar que é considerado bonito, importante, mas não tem acesso a ele.
Diante desse cenário, o Governo, através da figura do Poder Executivo, ao qual é atribuída a função de governar o povo e administrar os interesses públicos de acordo com as leis previstas na Constituição Federal, deve aumentar o orçamento do Ministério da Educação para que este promova um treinamento para professores, pedagogos e diretores em âmbito nacional, a fim de combater o preconceito linguístico existente na sociedade. Para isso, pode-se reverter, por exemplo, a política de renúncia fiscal que segundo o TCU, Tribunal de Contas da União, somaram, somente em 2017, R$ 354,7 bilhões, e utilizar esse montante para essa finalidade. Espera-se, com isso, que as variações linguísticas no Brasil possam ser tratadas como riqueza cultural e não sejam mais alvo de preconceito.