Preconceito Linguístico

Enviada em 28/10/2018

Segundo o poeta Olavo Bilac, a língua portuguesa é considerada “a última flor do Lácio” por ser a variação historicamente mais recente do latim falado na Itália. Dentro dessa lógica, a língua, sendo parte do processo de comunicação e interação social, acompanha a sociedade, transformando-se, assim como o escritor parnasiano metaforiza em sua obra “Língua Portuguesa”. O que acontece atualmente, entretanto, é que, por ter uma gramática normativa considerada padrão, as variações não são aceitas e, consequentemente, consideradas “erradas”, consolidando o preconceito linguístico.

Em princípio, é necessário compreender como a variação linguística é importante no cenário nacional, sem que haja uma visão discriminatória. Apesar do idioma falado no Brasil ser oficialmente o português, no país é observado variantes imersas a um contexto regional, histórico e etário. Nessa lógica, o modo de falar de um cidadão nordestino é naturalmente diferente do modo de falar de um sulista, pelo fato do território brasileiro ser extenso e pelos legados culturais de cada região. Da mesma forma, a fala de um idosos que viveu em determinada época difere-se do falar de um jovem submergido a uma realidade distinta.

Não obstante, o fato de que há uma norma-padrão a ser seguida faz com que qualquer desvio da mesma seja visto erroneamente. Sob esse viés, o sociólogo Pierre Bordieu afirma que a sociedade participa de um ciclo vicioso de incorporação e reprodução de estruturas padronizantes. Seguindo essa etimologia, quando se é ensinado, principalmente nos anos escolares iniciais, que o modo de falar do outro é incorreto por não seguir a norma-padrão, tal pensamento se perdura pelo coletivo e a língua torna-se uma ferramenta de segregação social, na qual apenas os que falam de acordo com a norma vigente estão corretos.

Fica claro, desse modo, que há obstáculos para que o preconceito linguístico seja efetivamente combatido no país. É preciso, primordialmente, que o Estado, através do Ministério da Educação, crie um programa dentro da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que aborde de modo aperfeiçoado essa temática nas escolas, estimulando e orientando os alunos a respeitarem a diversidade linguística. Além disso, é mister que também seja esclarecido pelos professores que a gramática normativa não deve ser descartada — já que ela é a base do idioma —, mas sim respeita e não usada como mecanismo de exclusão social. Assim, o preconceito linguístico e seus efeitos poderão ser mitigados.