Preconceito Linguístico
Enviada em 28/10/2018
Durante o movimento modernista no Brasil, os autores pregaram o rompimento com os padrões tradicionais da escrita e passaram a propagar a liberdade criativa, na medida em que as diferentes nuances linguísticas brasileiras adentraram os poemas e as poesias. Nos horizontes hodiernos, todavia, observa-se que tais preceitos permaneceram na literatura, uma vez que a valorização de uma variante falada em detrimento de outras e a super estereotipação midiática corrobora para a propagação do preconceito linguístico. Com efeito, o diálogo entre sociedade, mídia e Estado é medida que se impõe. Em primeira análise, cabe destacar o papel aculturador da escola. Isso porque, ao se ensinar apenas a norma padrão, repreende-se toda e qualquer variante da língua, cuja diferenciação se dá em diversos níveis: social, econômico e regional. Dessa forma, como preconizado por Émile Durkheim em sua teoria do fato social, a maneira coletiva de agir e pensar da sociedade – neste caso, do não reconhecimento da língua como um tecido fluído e mutável através do tempo – é importante vetor no que tange à disseminação do preconceito linguístico.
É notório, concomitantemente, que as grandes mídias criam estereótipos baseados nas diferenças regionais brasileiras e no respectivo modo de falar dos habitantes locais. Não obstante, os programas televisivos de humor, principalmente, utilizam de tal recurso numa tentativa velada de ridicularizar determinada cultura, ao torná-la homogênea, engessada e alvo de preconceito. De fato, como explicitado pelo físico alemão Albert Einstein, é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito enraizado. Sob tal perspectiva, necessita-se combater o assédio linguístico desde sua raiz, para que tal ideologia não se torne alicerce em nossa cultura.
Urge, portanto, que a tríade mídia, governo e sociedade cooperem para mitigar os efeitos do preconceito linguístico no Brasil. É imprescindível que o governo, através do Ministério da Educação, aprove uma nova base curricular nacional que contemple não somente o ensino da gramática normativa, mas também as diferentes vertentes linguísticas encontradas em nosso país, por meio de palestras com especialistas no assunto em escolas de nível fundamental e médio. Ademais, cabe à mídia atuar na desconstrução dos estereótipos por ela mesma criados, utilizando de novelas, programas de auditório, etc. que ensinem a população a respeitar os diferentes tons linguísticos encontrados em nossa terra. Só assim poderemos entender que, ser fluente, na verdade, é ser poliglota dentro da mesma língua.