Preconceito Linguístico

Enviada em 28/10/2018

Segundo o pensamento de Pierre Bourdieu, a violência simbólica consiste na imposição da legitimidade de uma única cultura, desconsiderando e inferiorizando a dos segmentos populares. Esse panorama auxilia na análise da questão dos efeitos do preconceito linguístico no Brasil, visto que a sociedade, apesar de viver em um país multicultural, marginaliza aqueles que não têm acesso à norma culta da língua, perpetuando o preconceito social enraizado no linguístico e podendo causar, inclusive, problemas de sociabilidade nas vítimas.

Em primeiro plano, evidencia-se que o corpo social brasileiro é extremamente hierarquizado e injusto, do qual geralmente apenas um pequeno grupo abastado tem domínio da língua culta portuguesa. Os menos afortunados, isto é, a grande maioria da população, não têm acesso à educação básica de qualidade e, por isso, além de social, sofrem periferização linguística. Ainda, a mídia reforça esse preconceito ao associar essa parcela social a regiões específicas do Brasil, como o Nordeste, por meio da inserção de personagens com tais características em novelas, por exemplo, de forma desrespeitosa e humilhante quando o faz com intuito jocoso.

Outrossim, as vítimas desse tipo de preconceito têm seu direito de fala roubado por não terem tal prestígio social e têm sua sociabilidade impactada, já que passam a ter vergonha de se expressar. Dessa maneira, diversos problemas psíquicos podem ser desenvolvidos, como síndrome do pânico e até depressão. É inadmissível que grupos dominantes dentro desse modelo excludente de sociedade continuem a marginalizar essa parcela social, já que, segundo gramaticistas, não existe unidade linguística dentro do país, mas uma diversidade que não pode ser desconsiderada, tampouco denominada errada.

Destarte, é incontrovertível que haja medidas públicas para alterar esse cenário. É fundamental, portanto, que o Legislativo desenvolva leis que tipifiquem esse tipo de preconceito como crime e imponha aos criminosos multas e reclusão, com o fito de garantir a todas as pessoas o direito de se expressar livremente. Além disso, o Ministério de Direitos Humanos deve, aliado à mídia, promover ações inclusivas, por meio de campanhas contra a manutenção desse tipo de opressão, a fim de sensibilizar a sociedade quanto a diversidade linguística. Dessa forma, a violência simbólica imposta por Bourdieu pode não mais se manifestar no Brasil.