Preconceito Linguístico
Enviada em 31/10/2018
Pode-se afirmar que a invenção da escrita, há mais de 6.000 anos, foi o avanço mais importante na história da humanidade, isso porque tornou possível a ampla comunicação entre os povos através da linguagem falada. Sendo assim, a língua é um dos principais instrumentos que sustentam a vida em sociedade, mas é também uma das ferramentas de segregação da mesma. A desigualdade social e a falta de respeito com as particularidades do contexto histórico e cultural do outro são os principais motivos que influenciam o preconceito linguístico.
Em primeira instância, deve-se ter em mente que classe social e nível de escolaridade estão interligados e ocupam grande espaço nesse cenário problemático. Levando em consideração que a educação de qualidade no Brasil é extremamente mal distribuída, as pessoas com um maior poder aquisitivo são, em sua maioria, as que possuem um maior nível de escolaridade e, consequentemente, um vasto conhecimento sobre a gramática normativa. Isso faz com que essas pessoas sintam-se superiores sobre as que não tiveram as mesmas oportunidades e as desrespeitam, como forma de piada. Foi o que aconteceu com o médico Guilherme Capel que, após atender um mecânico de 42 anos que estudou até o segundo ano do ensino fundamental, postou uma foto em sua rede social dizendo “Não existe peleumonia e nem raôxis”, debochando do paciente.
Ademais, programas de TV ao retratar personagens nordestinos, por exemplo, vendem sempre uma imagem grotesca, atrasada, criada pra provocar o riso, como assim falou o escritor Marcos Bagno em “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz” sobre a marginalização e exclusão do povo nordestino. Isso acontece também com o “r” retroflexo do interior paulista, o chiado carioca, o pronome “tu” no Paraná, alvos fáceis de bullying, principalmente no colégio, que trazem como consequências problemas de sociabiliadade e, até mesmo, psicológicos.
Fica evidente, portanto, que medidas devem ser tomadas para evitar que a língua seja um fator decisivo na exclusão social. Primeiramente, o âmbito escolar tem o dever de abordar de maneira mais aprofundada sobre o assunto e mostrar, nas aulas de Português, exemplos de variantes para que os alunos, desde pequenos, vejam a riqueza da diversidade cultural do país, além de propôr dinâmicas em grupo, para trabalhar a inclusão e a aceitação do diferente. Outrossim, a mídia tem que parar de estereotipar o personagem pela forma como fala e promover campanhas que ajudem a desconstruir o preconceito linguístico, até porque ser um “bom” falante é ser poliglota na própria língua.