Preconceito Linguístico
Enviada em 27/10/2018
Na obra “O Povo Brasileiro”, o antropólogo mineiro Darcy Ribeiro expõe os caminhos da formação do Brasil como nação, exaltando a diversidade étnica como uma bela singularidade. Entretanto, paradoxalmente, a variação linguística, um dos fatores que deveriam ser enaltecidos em uma cultura, é motivo de discriminação. Nesse sentido, devido a uma história repleta de imposições culturais, em que as minorias frequentemente são reprimidas, a diluição desse problema encontra desafios. Além disso, a perpetuação do reconhecimento de variantes tidas como soberanas colabora para o impasse.
Em primeiro plano, desde a catequização dos índios imposta pelos jesuítas portugueses, passando pela indigna descrição do Nordeste feita por Euclides da Cunha em “Os Sertões”, até os atuais discursos de ódio na internet contra etnias alheias, a repressão cultural sempre esteve presente no Brasil. Nesse viés, o preconceito dialético coevoluiu com o regional, tendo em vista que, segundo a Secretaria de Direitos Humanos da República, entre os anos de 2009 e 2014, 46% das ocorrências de discriminação linguística registradas eram contra nordestinos. Desse modo, atitudes que começam na formação do indivíduo são necessárias para combater intolerâncias que estão enraizadas no país sul-americano.
Todavia, a persistência de mitos sobre as variedades da Língua Portuguesa que circulam em nosso desenvolvimento escolar e na mídia, igualmente corrobora a problemática. Por exemplo, a crença de que a língua falada nas metrópoles vale mais do que a praticada no interior é ratificada tanto pelos meios de comunicação quanto pelo meio acadêmico. Evidenciando esse fato, segundo o filólogo Marcos Bagno, “a língua é um iceberg flutuando no mar, e a norma culta é a tentativa de descrever apenas a parcela mais visível. Essa descrição tem seu valor, mas é parcial e não pode ser aplicada a todo o resto da língua; a ponta do iceberg que emerge representa apenas um quinto do seu volume total”. Logo, promover um entendimento geral vale mais do que combater a discriminação.
Em síntese, para alcançar uma sociedade na qual as pessoas não pensem em termos de raça ou de região, o Brasil deve fazer políticas sociais que preveem a construção de uma nova era. Para isto, é necessária uma educação justa que valorize a diversidade humana e assuma a igualdade como ideário étnico e social alcançável. Isso se dará, sobretudo, com programas educacionais promovidos pelo Ministério da Educação na formação de docentes orientados nos princípios de equidade, tolerância e respeito à diversidade cultural. Ademais, as instituições de Ensino Superior e os Centros de Pesquisa em Ciências Sociais devem se dispor a socializar conhecimentos científicos sobre o valor da identidade brasileira. Assim, diferenças serão apenas marcas da pluralidade.