Preconceito Linguístico

Enviada em 26/10/2018

Escrito em 1595 pelo Padre Antônio Vieira, o livro “Arte da Gramática da Língua Mais Usada no Brasil” foi uma tentativa de codificar o idioma falado no Brasil na fase colonial. Entretanto, observa-se que o feito foi frustrado, pois não retratou a heterogeneidade das línguas locais, ao prevalecer a norma lusitana em detrimento dos dialetos indígenas e africanos. Sob esse prisma, hodiernamente, nota-se a perpetuação da visão eurocentrista por meio do preconceito linguístico, oriundo de fatores históricos e preceitos sociais ultrapassados.

A priori, convém ressaltar que a língua portuguesa se origina do latim vulgar, variante falada pelas classes menos favorecidas do Império Romano. Além disso, é importante lembrar que cada oscilante do código linguístico possui características intrínsecas, sendo patrimônio cultural de determinado grupo, e considerando um país miscigenado e de dimensões continentais como o Brasil, fica evidente que a pluralidade se refletirá em todos os âmbitos, inclusive na comunicação. Portanto, é incoerente a elitização da forma padrão dessa língua, e a discriminação de suas variáveis, visto que a fala é viva e passível de mudança, tal qual seus falantes.

Por conseguinte, é notório que o prestígio da norma culta é ferramenta de manutenção da segregação social. Sob esse viés, é correto afirmar que sujeitos com maior escolaridade e maior poder aquisitivo, por exemplo, sobressaem-se em prejuízo daqueles que não tiveram as mesmas oportunidades, reforçando, assim, a lógica meritocrática.  Somado a isso, verifica-se ainda a banalização do preconceito, dado que conteúdos de entretenimento se utilizam de estereótipos regionais de maneira pejorativa para compor seus personagens, acentuando e propagando a discriminação.

Dado o exposto, faz-se necessário reverter tal contexto. Para isso, é imprescindível que o Ministério da Educação reformule o conteúdo do curso superior de letras e o lecionado  nas escolas, de modo que haja a construção de respeito à diversidade linguística brasileira. De mesmo modo, é essencial que o Ministério da Justiça, em parceria com o Ministério da Cultura, aplique multas nas redes televisivas que representem de maneira depreciativa a profusão do idioma luso-brasileiro. Destarte, a sociedade perceberá que mais que ferramentas de comunicação, a linguagem e suas variantes traduzem a riqueza cultural de um país.