Preconceito Linguístico

Enviada em 25/10/2018

“Não existe peleumonia e nem raôxis.” A polêmica postagem de um médico nas redes sociais, em 2016, segurando um receituário com a frase supracitada em tom de deboche, gerou discussões na internet sobre uma questão pertinente até hoje: o preconceito linguístico. Entre um caso de antiética médica como esse e uma estereotipização do sotaque baiano na novela Velho Chico, o preconceito linguístico revela-se enraizado na sociedade brasileira, com efeitos sutis, mas nefastos, que devem ser combatidos pragmaticamente pela sociedade e pelo Estado brasileiros.

Em primeiro lugar, é necessário ressaltar a profundidade desta problemática. Sumariamente, fora raríssimas exceções, o preconceito linguístico não costuma ser bilateral: é um ato direcional, uma relação de poder do centro à periferia. Isso porque, segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, um grupo dominante pratica violência simbólica ao impor o seu modo de falar como superior ao do periférico – principalmente àqueles aos quais é negado o conhecimento pleno da “norma culta”. Logo, quando se exerce preconceito linguístico, há uma inevitável opressão simbólica não apenas no que tange à linguagem, mas também a toda a identidade ligada à variação linguística do grupo oprimido.

A partir dessa perspectiva, não importa a escala ou o âmbito do preconceito – seja por desvios gramaticais dentro de um mesmo ambiente, seja por diferenças de sotaques regionais –, deve-se sempre entendê-lo como uma forma de violência com graves impactos às vítimas. Inadmissivelmente, elas não só tem sua identidade desvalorizada, ou até mesmo negada, como passam a ser estereotipadas e perseguidas por uma imagem que se cria sobre elas, como ocorre com nordestinos comumente agredidos verbal ou fisicamente por xenófobos ao serem identificados pelo seu sotaque em outras regiões. Outrossim, conforme constata o linguista Marcos Bagno, o preconceito linguístico pode gerar, de forma lamentável, problemas de sociabilidade e danos psicológicos irreparáveis.

Dessarte, é imperioso que medidas sejam tomadas para combater o preconceito linguístico, a fim de promover maior alteridade e sanar os efeitos dessa chaga social. É necessário, a priori, que o Ministério da Educação (MEC) promova campanhas educativas em escolas e universidades, por meio de palestras ou cursos extracurriculares, com o título, por exemplo, “Mais importante que a Norma Culta: o respeito às variações”. Esse deve ser o lema, também, de campanhas publicitárias a serem realizadas pelo MEC, em conjunto com instituições formadoras de opinião, como a mídia, e redes sociais, para esclarecer a sociedade acerca dessa questão, superando o desconhecimento sobre esse assunto e promovendo maior respeito às vastas diferenças linguísticas existentes na nação brasileira.