Preconceito Linguístico

Enviada em 25/10/2018

A língua, desde longa data, é instrumentalizada pelos poderes oficiais como um mecanismo de controle, exclusão e opressão social, que é o que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de “língua legítima”: as classes dominadas reconhecem a norma culta, mas não a conhecem. Assim, as classes dominantes usam o padrão normativo para manter essa distinção social. Nesse sentido, o preconceito linguístico consiste no julgamento depreciativo, desrespeitoso e humilhante da fala do outro, e a manutenção dessa discriminação é realizada, sobretudo, pelas próprias escolas e professores e pelos meios de comunicação.

Em primeiro âmbito, segundo o escritor e professor Marcos Bagno, autor do livro “Preconceito Linguístico - o que é, como se faz”, esse preconceito é proveniente, principalmente, das práticas escolares, que se apoiam apenas na gramática, nos métodos de ensino e livros que, na maioria das vezes, são tradicionais e autoritários no que se refere à norma padrão. Dessa forma, manifestações fora desse modelo, como variações relacionadas à região de origem e condição social, são censuradas e até mesmo ridicularizadas, por causa da não valorização da pluralidade existente no Brasil, que é um dos países mais ricos culturalmente.

Em segundo aspecto, os meios de comunicação, que deveriam ser instrumentos de democratização das relações linguísticas da sociedade, contribuem com a perpetuação da discriminação linguística, especialmente por serem estritamente vinculados às classes dominantes. Desse modo, ocorre a valorização da fala das camadas mais privilegiadas, em novelas e propagandas, em detrimento das formas de comunicação dos menos favorecidos socialmente, regionalmente e educacionalmente. Como exemplo pode-se citar a constante representação de nordestinos de forma pejorativa - através de caipiras e caricaturas - que geralmente são vistos como pessoas de baixa intelectualidade, por causa, unicamente, da forma que se comunicam.

Fica evidente, portanto, a necessidade do Ministério da Educação impor às escolas um processo de acesso ao letramento a partir de práticas pedagógicas democratizadoras, nas quais variações linguísticas sejam reconhecidas e valorizadas como prática da cultura nacional, por meio, especialmente, dos professores, que devem se apegar menos às regras gramaticais e mais à missão de ajudar os alunos a desenvolver a capacidade de expressão e reflexão, para que a educação seja um meio de combater as discriminações. Ademais, a mídia também deve influenciar o respeito, além de evitar a crianção e sustentação de estereótipos.