Preconceito Linguístico

Enviada em 25/10/2018

Com a chegada do cinema no Brasil, o famoso personagem Jeca-Tatu que transmitia simplicidade e bondade, foi caracterizado na interpretação do ilustre Mazzaropi, desvirtuando o sentido simbólico construído por Monteiro Lobato e transformando o caipira em gozação. Nesse sentido, tal contexto histórico foi responsável pela construção do preconceito linguístico existente na sociedade hodierna, que representa um problema para o desenvolvimento cultural e social do país. Por conseguinte, mostra-se necessária a análise de dois aspectos: o uso humorístico dos diferentes sotaques nos meios de comunicação e a rígida imposição da norma culta nas escolas brasileiras.

Primeiramente, é indubitável que o modo de falar das pessoas do norte do país, é usado de forma engraçada nas novelas e seriados da TV brasileira. Segundo dados do site G1, 63% dos brasileiros detêm a televisão como principal meio de informação. Sendo assim, os filmes e novelas que fazem os personagens utilizarem gírias ou sotaques nordestinos, com o intuito de provocar riso nos telespectadores, acentuam a segregação social no país, já que, a língua está totalmente ligada à estrutura e os valores da sociedade, ocasionando o desrespeito e o descaso com esse grupo de pessoas que usam tais expressões.

Outrossim, destaca-se o ensino apenas da norma culta como correta nas escolas, como impulsionador do impasse. Como disse o filósofo Louis Bonald, “A cultura forma sábios; a educação, homens”. Dessa forma, os professores devem continuar ensinando a norma padrão do Português para os alunos, porém, na maioria das vezes os estudantes acabam sendo ridicularizados pelos professores, por causa do seu modo de falar, fazendo com que eles sintam vergonha de expressar o seu sotaque novamente, acarreando no desaparecimento de estilos culturais que estruturam o Brasil.

Em vista dos fatos supracitados, torna-se imprescindível a adoção de medidas que venham desconstruir o uso humorístico dos sotaques nos meios midiáticos e valorizar outras estilos da língua portuguesa no ambiente escolar. Destarte, cabe ao Ministério das Comunicações, assegurar que o modo de falar dos personagens de filmes e novelas não seja utilizado como forma de humor, por meio de acordos com as redes da TV brasileira, que se não respeitados, resultem no corte do programa de televisão, com o intuito de desfazer o hábito de rir das pessoas que falam “diferente”. Ademais, o MEC deve garantir a valorização da diversidade linguística que compõe o Brasil, por meio da criação, nas escolas, da disciplina “Linguagens brasileiras”, que apresente as ricas variações regionais do Português brasileiro para os alunos, com o objetivo de valorizar e preservar todas as formas culturais do país.