Preconceito Linguístico
Enviada em 24/10/2018
O preconceito linguístico sintetiza uma problemática que necessita ser debatida. Nesse viés, destaca-se a polêmica do livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada ”, escrito por Carolina Maria de Jesus. A autora, catadora de papéis, negra e moradora da favela do Canindé, foi alvo de críticas em virtude de tê-lo escrito em linguagem coloquial, o que ilustra um exemplo da intolerância existente sobre a heterogeneidade do português brasileiro. Diante do conteúdo exporto, dois aspectos fazem-se relevantes: a discriminação das variações linguísticas e a inferiorizarão da língua portuguesa no Brasil.
Em primeiro plano, no que tange ao prejulgamento das variações linguísticas, infere-se que há um desprezo das pessoas que não se comunicam de acordo com a norma padrão, as quais são estereotipadas como socioeconomicamente inferiores e intelectualmente atrasadas. Em suma, tanto a cultura linguística nordestina quanto a de residentes de áreas rurais podem ser tomadas como exemplo, haja vista que, vulgarmente, são discriminados nas megacidades. Ao encontro desse pensamento, ressalta-se o livro “Preconceito linguístico”, do escritor e doutor em língua portuguesa Marcos Bagno. Segundo o autor, o conhecimento da gramática normativa é utilizado como instrumento de distinção e de dominação pela população culta.
Em segundo plano, nota-se que a língua portuguesa sofre um processo de desvalorização por influência das línguas estrangeiras. Sob essa ótica, destaca-se a máxima retirada da crônica “Transbording” de Luiz Fernado Veríssimo: “triste o país que tem vergonha de sua língua”. Nela, o autor ironiza o uso de palavras inglesas como forma de ostentação, o que reflete a realidade, uma vez que é frequente o uso, em vitrines de lojas e em nomes de empresas, de termos estrangeiros. Com efeito, é necessário que o português seja mais reconhecido como símbolo identitário por seus falantes, sem idolatrar ou menosprezar as demais línguas.
Destarte, é indubitável que medidas fazem-se essenciais para abrandar a situação descrita. Para isso, o Ministério da Educação deve orientar suas instituições de ensino a debater, nas aulas de português e literatura, a questão do respeito às variações linguísticas e usar, para tanto, os estudos do Dr. Marcos Bagno, com a intensão de conduzir os alunos à reflexão e à conscientização sobre o tema. Outrossim, cabe ao Ministério da Cultura incentivar, por intermédio de isenções fiscais, empresas do setor midiático a retratarem, em novelas, filmes e séries, a temática do desmerecimento do português, a fim de que, dessa forma, a sociedade reconheça a importância da língua na identidade nacional. Logo, a partir do conjunto de ideias supracitas, o preconceito linguístico tornar-se-á mais ameno.