Preconceito Linguístico
Enviada em 24/10/2018
Na segunda década do século XX, um grupo de artistas brasileiros intensificou um grande processo de revolução literária no país, no qual buscava-se a superação da erudita poesia parnasiana por uma mais próxima ao povo: a modernista. Nesse contexto, a linguagem coloquial e os regionalismos foram integrados à arte outrora perfeccionista, em uma postura de combate à exclusão e discriminação de diversas variantes linguísticas. Entretanto, a marginalização sob o aspecto da língua ainda é proeminente no país e incentivada por grandes instituições sociais.
Primeiramente, cabe citar a mídia televisiva como uma grande propagadora do preconceito linguístico. Essa relação é corroborada pelo linguista Marcos Bagno em seu livro " Preconceito Linguístico: o que é, como se faz", no qual critica a estereotipação gerada por representações desvirtuadas de falantes nordestinos em muitas obras de teledramaturgia. Dessa forma, a caracterização “grotesca” e “rústica” desses personagens, de modo a gerar humor, contribui para criar a estigmatização do falar nordestino no público, associando-o a um sotaque engraçado e típico de classes baixas, assim como ocorre com a alusão a moradores de comunidades.
Além dos veículos de comunicação, as escolas, também, contribuem para a persistência da discriminação relacionada a formas de falar e escrever. Essas instituições, muitas vezes, ao seguirem um modelo anacrônico de educação, focado, majoritariamente, em aprovações, impõem a norma culta como única variante capaz de gerar sucessos profissionais e sociais, como empregos de destaque e admirações. Com isso, alguns alunos podem carregar um olhar de julgamento para pessoas que não se enquadram nesse padrão ou podem ter sua autoimagem afetada, caso também não se adequem a ele.
Fica claro, portanto, que o etnocentrismo linguístico, por mais que tenha sido combatido pelo movimento modernista, ainda é comum no Brasil e estimulado,muitas vezes, pela mídia e por escolas. Com o objetivo de mitigar essa problemática, é importante que autores de teledramaturgia se empenhem em desconstruir preconceitos relacionados à linguagem. Isso pode ser feito mediante uma valorização de figuras marginalizadas nesse quesito, representando nordestinos e moradores de comunidades em posições de destaque, além de erradicar os exageros nas formas de falar desses grupos. Ademais, as escolas podem, em suas aulas, expor os alunos a diferentes variantes linguísticas, contando sobre a história de suas formações e relevâncias para a constituição da Língua Portuguesa, de modo a ambientar os estudantes com as diferenças. Assim, será possível dar continuidade ao processo de inclusão social iniciado pelos poetas da Semana de 22.