Preconceito Linguístico
Enviada em 24/10/2018
“Não existe peleumonia e nem raôxis.” A polêmica postagem de um médico nas redes sociais, em 2016, segurando um receituário com frase supracitada em tom de deboche, gerou discussões acaloradas na internet sobre um tema pertinente até hoje: preconceito linguístico. Entre um caso de antiética médica como esse e uma estereotipização do sotaque baiano na novela Velho Chico, o preconceito linguístico revela-se enraizado na sociedade brasileira, com efeitos sutis, mas nefastos, que devem ser combatidos pelo Estado e pela sociedade.
Em primeiro lugar, é necessário ressaltar a profundidade desta problemática. Sumariamente, fora raríssimas exceções, o preconceito linguístico não costuma ser bilateral, como se supõe rasamente: é um ato direcional, uma relação de poder do centro à periferia. Isso porque, segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, um grupo dominante pratica violência simbólica ao impor o seu modo de falar como superior ao das periferias – principalmente àquelas às quais é negado o conhecimento pleno da “norma culta”. Assim, quando se exerce preconceito linguístico, há uma opressão simbólica não apenas no que tange à língua, mas a toda a cultura e identidade ligada à variação linguística do grupo oprimido.
Dessarte, não importa a escala ou o âmbito do preconceito linguístico – seja por diferenças de sotaques regionais, seja por gírias ou desvios gramaticais dentro de uma mesma cidade –, deve-se sempre entendê-lo como uma violência simbólica com graves impactos às vítimas. Elas não só tem sua identidade desvalorizada, ou até mesmo negada, como passam a ser estereotipadas, tachadas e perseguidas por uma imagem que se cria sobre elas, como ocorre com nordestinos comumente agredidos fisicamente por xenófobos ao serem identificados pelo seu sotaque em outras regiões. Outrossim, segundo o linguista Marcos Bagno, especialista no tema, o preconceito linguístico pode gerar problemas de sociabilidade crônicos e distúrbios psicológicos irreparáveis.
Portanto, é imperioso que medidas sejam tomadas para combater o preconceito linguístico, a fim de promover maior alteridade e sanar as consequências dessa chaga social. É necessário, a priori, que o Ministério da Educação (MEC) promova campanhas educativas nas escolas, por meio de palestras ou cursos extracurriculares, com o título, por exemplo, “Mais importante que a norma culta: o respeito ao próximo e às diferenças”. Esse deve ser o lema, também, de campanhas publicitárias a serem realizadas por parcerias entre o MEC e as instituições formadoras de opinião, como a mídia e as redes sociais, para esclarecer a sociedade acerca dessa questão, superando o desconhecimento sobre esse tema e promovendo maior respeito às vastas diferenças linguísticas existentes na nação brasileira.