Preconceito Linguístico

Enviada em 24/10/2018

A Semana de 22 objetivou romper com as influências europeias e apresentar um viés artístico com a brasilidade. No entanto, mesmo com as marcas nordestina, mineira ou nortista na literatura, a variação linguística ainda se apresenta como um segregador social. A escola que explora apenas a norma culta e a mídia que estigmatiza as variantes são importantes viabilizadores do preconceito. Portanto, a discriminação deve minimizada visando alcançar uma sociedade integrada.

Em primeiro plano, Marcos Bagno, militante contra a discriminação social por meio da linguagem, defende em uma de suas teses que os professores devem explorar o dinamismo linguístico, e não aplicar a norma culta como saber único. Quando este dinamismo não é explorado no ambiente escolar, toda variação que fere a norma culta - instrumento de empoderamento social - tende a ser alvo de discriminação e exclusão social. Isso porque, ao adotar uma língua como oficial e ter qualquer outra como dialeto, o indivíduo que fala ‘‘me dá um cigarro’’ é hostilizado socialmente. Com isso, a fala atua como um segregador social, deixando à margem as minorias vítimas da péssima gestão educacional ou moradores das mais diversas regiões brasileiras.

Além disso, corroborado ao desconhecimento das variantes proporcionado pela escola, a mídia estigmatiza as variações linguísticas através do humor e piadas pejorativas. Dessa maneira, os indivíduos, que desconhecem a diversidade da língua viva, são direcionados a agir com preconceito com o outro. Uma forma de preconceito caracterizada de humor é a imagem do ex presidente Luís Inácio Lula da Silva, que é veementemente acusado de não dominar a norma culta, sendo justificado pela sua formação escolar e por ser oriundo de Pernambuco, no nordeste brasileiro

Dessarte, faz-se necessário que o combate ao preconceito linguístico almejando diminuir a segregação social e a discriminação entre os falantes. Cabe ao MEC realizar uma releitura dos cursos de licenciatura visando que as variações linguísticas sejam exploradas positivamente e os professores promovam a conscientização dos alunos de fundamental II e ensino médio, objetivando a internalização da norma culta e aceitação das variantes. E compete a mídia cumprir seu papel de responsabilidade social e apresentar aos telespectadores a diversidade da fala como algo natural de um território tão extenso e miscigenado, devendo por fim as piadas depreciativas, principalmente ao falar nordestino. É indiscutível que, após quase cem anos da Semana de 22, a população brasileira permanece despreparada para lidar com tais diversidades falantes e culturais.