Preconceito Linguístico
Enviada em 23/10/2018
Desde o período colonial brasileiro, com a chegada dos portugueses, criou-se um ideal de superioridade da língua e da fala. Prova disso é que a linguagem do português, considerada culta e correta se sobrepôs à indígena, tida como rude e inadequada. Nesse sentido, é necessário observar como os rastilhos históricos, atrelados à negligência governamental, colaboram para a persistência do preconceito linguístico no país.
Nesse contexto, e de acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, a sociedade, por tender a incorporar os ideais vigentes em sua época, reproduzí-los e naturalizá-los, ainda acredita na superioridade de uma língua em relação às demais, mesmo passados mais de 500 anos da colonização. Exemplo disso, é quando, diariamente, principalmente nas escolas, pessoas satirizam o falar do outro ou o corrige com a intenção de rebaixar. Por conseguinte, e graças ao falho modelo pedagógico atual, que não se interessa em ensinar valores éticos e morais essenciais em sala para barrar a reprodução do preconceito, milhares de brasileiros tornam-se invisíveis e são desprezados no espaço coletivo.
Como se não bastassem os reflexos negativos da nossa ocupação, somados à falha das escolas em combatê-los, a negligência do governo, que ainda não criminalizou os casos de preconceito linguístico no país, dificulta a solução do impasse. Isso porque, sem as devidas leis punitivas, as pessoas que se intitulam superiores sentem-se livres para disseminar o ódio e continuar calando as vozes das minorias que, de acordo com o escritor Nick Couldry, é o principal instrumento de participação democrática pois é a partir dela que o cidadão denuncia suas insatisfações e necessidades.
Urge, portanto, a necessidade de barrar a reprodução histórica dos ideais destrutivos de superioridade linguística, capacitando as escolas, bem como a importância de leis que auxiliem nesse processo. Sendo assim, o MEC, em parceria com pedagogos, deve realizar uma reforma no ensino infantil, fundamental e médio, incluindo em sua grade horária a disciplina de ética e cidadania, com o objetivo de ensinar valores essenciais, como respeito ao próximo, e pôr fim à persistência da intolerância. Ademais, o Poder Legislativo deve criar uma lei que criminalize os casos de intolerância linguística com a intenção de coagir os agressores e dar espaço à voz dos, por tantos anos, oprimidos. Somente assim, longe da hierarquização da fala, será possível deter o preconceito linguístico no Brasil.