Preconceito Linguístico

Enviada em 24/10/2018

Na obra “Grande Sertão: Veredas”, o autor, Guimarães Rosa, afirmou que o real se dispõe a todos no meio da travessia. Seguindo esse viés, é possível perceber que viver socialmente é estar à mercê de contínuas mudanças de paradigmas, os quais, por sua vez, devem ser respeitados, a fim de garantir o direito à alteridade de cada indivíduo. No entanto, nota-se que tal fato não ocorre no Brasil, no que se trata das variedades nas formas de comunicação. O preconceito linguístico é praticado, no país, desde o inicio de sua formação e perdura, de forma latente, na atualidade.

Em primeiro plano, é válido ressaltar o processo de formação do território brasileiro. Desde a chegada dos portugueses ao Brasil, é imposta, à sociedade uma forma padrão de comunicação, a norma culta da língua portuguesa, bem como ocorreu com os povos indígenas que aqui habitavam no período pré-colonial. Contudo, devido a grande extensão territorial do país, não houve a propagação de uma homogeneidade linguística, mas sim a adaptação de distintas culturas, que provocou- em cada região- variedades da língua portuguesa. Nesse cenário, torna-se necessário aprender a “ser poliglota em nossa própria língua”, assim como proferiu Evanildo Bechara, filósofo brasileiro.

Ademais, corroborando para agravo do preconceito linguístico, há a supervalorização de alguns hábitos culturais em detrimento de outros. Popularmente, é comum associar o termo “cultura” a hábitos -geralmente- praticados por grupos mais abastados da sociedade e que, por isso, tiveram maior oportunidade de obter ensino formal. Dessa forma, é mais prestigiado, por exemplo, o apreço à música clássica, do que ao forró nordestino, estilo musical oriundo camadas populares mais pobres e que apresenta linguagem que não segue à norma gramatical padrão. Sendo assim, a prática que determina um único modo de comunicação, a fim de estabelecer uma hegemonia cultural, suprime as demais manifestações linguísticas legítimas.

Portanto, cabe à escola ensinar os alunos, desde o ciclo básico, por meio de palestras semestrais apresentadas por mestres da linguística, a respeito da legitimidade das variedades linguísticas da língua portuguesa, a fim de reduzir pensamentos e ações preconceituosas acerca delas. Paralelamente a isso, é importante que as emissoras de televisão, exponham, em pelo menos metade de suas programações, novelas e seriados protagonizados por artistas oriundos de regiões do país diferentes da região sudeste, para que todos os cidadãos se sintam representados. Assim , com o entendimento de que as variações da língua são componentes culturais fundamentais, a travessia de Guimarães Rosa será feita, pela sociedade, com muito mais facilidade.