Preconceito Linguístico
Enviada em 22/10/2018
A obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, conta a história de retirantes nordestinos que fogem do castigo da seca. No enredo, Fabiano, chefe da família, sente-se como um animal por não ter domínio da língua padrão. Embora tenha sido publicada no século passado, essa obra literária retrata também uma intolerância que se mantém na atualidade: o preconceito linguístico. Nesse aspecto, fatores políticos e socioculturais contribuem para a manutenção do problema.
A princípio, sabe-se que o Brasil é um país de várias culturas, onde povos nativos, africanos e europeus contribuíram para a construção de uma identidade complexa. Contudo, ao observar a dinâmica cultural, percebe-se que há uma valorização da norma culta da língua portuguesa, fenômeno que se materializa no preconceito linguístico. A continuidade desse problema, na questão política, se faz presente desde o período colonial, no qual o governo proibiu o uso de línguas nativas nas escolas e, consequentemente, na colônia. Hodiernamente, essa prática é refletida em meio a população, uma vez que nas escolas são ensinadas regras sólidas, que excluem qualquer outra variedade da língua falada no Brasil.
Outrossim, um fator que fomenta tal prática é o contexto sociocultural. Segundo Émile Durkheim, o fato social é caracterizado por ações e pensamentos exteriores e coercitivos ao indivíduo. Logo, infere-se que no processo histórico brasileiro, o domínio da língua formal foi determinante na formação de classes e, por conseguinte, do preconceito. Além disso, a existência da norma padrão da língua portuguesa, tornando-a homogênea, corroborou a intolerância existente, visto que suas variantes foram desprezadas. Sob esse viés, a construção de estereótipos foi reforçada, ora pelo acesso precário à educação, ora pela linguagem regional. Dessa forma, pessoas de várias regiões brasileiras são supressas e hostilizadas por se expressarem de uma forma diferente da exigida pela classe dominante.
Urge, portanto, que medidas sejam tomadas para solucionar o problema. Logo, é necessário que o Poder Legislativo crie uma lei que torne crime o preconceito linguístico, com intuito de atenuar esse impasse. Também é necessário que o Ministério da Educação e Cultura (MEC), junto às Secretárias de Educação reformulem o currículo escolar e incluam o ensino das variantes da língua,com uso de cartilhas, literaturas e atividades extracurriculares, a fim de que crianças cresçam e respeitem as diferenças existentes. Ademais, cabe ao MEC a criação de campanhas elucidativas em parceria com os meios de comunicação, a fim de debater os prejuízos ocasionados pela discriminação linguística. Destarte, esse triste aspecto retratado na obra regionalista “Vidas Secas” não fará mais parte do contexto brasileiro.