Preconceito Linguístico

Enviada em 21/10/2018

O dialeto caipira do interior paulista originou-se, durante o século XVII, com a fusão de uma variedade do tupi falado pelos índios da região e o português dos bandeirantes que ali se estabeleceram. O mesmo processo ocorreu com a variante linguística pernambucana, a qual foi muito influenciada pelos holandeses que ocuparam aquela região no século XVIII. Embora, no século XXI, é evidente o caráter multilíngue brasileiro, ainda ocorre o preconceito linguístico. Diante dessa problemática, cabe avaliar os fatores que favorecem esse quadro.

A princípio, é necessário salientar o papel da educação como um acentuador do preconceito linguístico, uma vez que, ao impor uma norma linguística, ela exclui a diversidade existente da língua. Isso ocorre devido à recente obrigatoriedade do ensino básico no Brasil, visto que, antes disso ocorrer, o público que tinha acesso à educação era seleto e abastado. Apesar da diversificação do público escolar, o mesmo não ocorreu com o projeto pedagógico, o qual ainda mantém estruturas que vislumbravam o público anterior. Assim, ao ditar uma unidade linguística, as escolas fomentam a exclusão social da diversidade linguística e, indiretamente, o preconceito.

Além disso, é importante frisar que, ao passo que a língua é uma reflexo da sociedade e de sua cultura, o preconceito linguístico é produto das desigualdades sociais e regionais existentes. Isso acontece devido não somente à imposição de uma norma culta, mas também de uma variedade linguística, muitas vezes do eixo Rio-São Paulo. Um exemplo disso é como as novelas dos grandes canais normatizam a cultura desse eixo como nacional, bem como os personagens de outras regiões do país são representados de maneiras caricatas e com tom pejorativo. Consequentemente, têm-se o aprofundamento dos preconceitos, ao passo que a realidade e a mídia potencializam tal situação.

Nesse sentido, urge que o Estado, por meio do Ministério da Educação, promova um currículo escolar que dê ênfase à variedade linguística e cultural existente no território brasileiro. Isso poderá ser feito por meio de um Congresso científico e social sobre a educação e suas práticas curriculares, para que a sociedade, juntamente aos educadores e outros especialistas no assunto, possam debater e construir um currículo pedagógico democrático e interdisciplinar, a fim de envolver todo o público e suas respectivas realidades com uma educação socialmente justa. Além disso, a mídia televisiva, através das novelas, deve fazer representações inclusivas de personagens que fogem da variedade cultural do eixo Rio-São Paulo, com o intuito de mostrar aos telespectadores que o Brasil é muito além dos grandes centros econômicos. Dessa forma, o Brasil poderia superar os desafios no que tangem ao preconceito linguístico.