Preconceito Linguístico
Enviada em 21/10/2018
A Semana de 22 apresentou um viés artístico com brasilidade, onde houve o rompimento com a arte acadêmica e apartando-se das influências europeias. Tal manifestação objetivava uma aproximação da linguagem coloquial, com temáticas nacionalistas e cotidianas. No entanto, mesmo com as marcas nordestina, mineira ou nortista na literatura, a variação linguística apresenta-se é um instrumento de segregação social. A ampliação do entendimento pleno das variantes evita que estas sejam discriminadas, combatendo assim o preconceito linguístico entre os falantes.
Em primeiro plano, a língua portuguesa apresenta um sistema padrão e esta é usada como forma de comunicação entre os indivíduos, mas o dinamismo da língua viva propicia que esta sofra variações de acordo com a história, região, idade ou situação. O desconhecimento das variações linguísticas presentes no território acarreta na discriminação entre os falantes. Isso porque, ao adotar uma língua como oficial e qualquer outra é tida como dialeto, o indivíduo que fala ‘‘me dá um cigarro’’ é hostilizado socialmente. Com isso, a fala atua como um segregador social deixando à margem as minorias vítimas da péssima gestão educacional ou moradores das mais diversas regiões brasileiras.
Além disso, a escola atua como importante viabilizador do preconceito linguístico. Visto que a língua é flexível como um elástico, no qual a força elástica permite que tal material seja deformado das formas mais dinâmicas, sem perder sua forma principal. Quando este dinamismo não é explorado no ambiente escolar, toda variação que fere a norma culta - instrumento de empoderamento social - tende a ser alvo de preconceito e discriminação. Corroborando a importância da escola , Marcos Bagno, militante contra a discriminação social por meio da linguagem, defende em uma de suas teses que os professores devem explorar os desvios e possibilidades de interações linguísticas e não aplicar a norma culta como saber único.
Dessarte, faz-se necessário que o combate ao preconceito linguístico almejando diminuir a segregação social e discriminação entre os falantes. Cabe ao MEC realizar uma releitura dos cursos de licenciatura visando que as variações linguísticas sejam exploradas positivamente e os professores promovam a conscientização dos alunos de fundamental II e ensino médio, objetivando a internalização da norma culta e aceitação das variantes. Cabe também a mídia cumprir o seu papel de responsabilidade social e apresentar aos seus telespectadores a diversidade da fala como algo natural em um território tão grande e miscigenado, devendo por fim as piadas depreciativas, principalmente ao falar nordestino. Quase cem anos após a Semana de 22, a população brasileira permanece despreparada para lidar com tais diversidades falantes e culturais.