Preconceito Linguístico
Enviada em 20/10/2018
‘’Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que vendo, não veem’’. O excerto do livro ‘’Ensaio sobre a Cegueira’’ de José Saramago critica uma sociedade invisual. Analogamente, tal obra se assemelha ao cenário contemporâneo, visto que o corpo social é inobservante sobre o preconceito linguístico, fruto de configurações inferiorizantes e da herança histórico- cultural.
A princípio, o preconceito linguístico é uma das faces da exclusão social. Nesse sentido, a norma culta é uma prática linguística de classes privilégiadas e ao considerarmos como única correta, existe o controle social daqueles sem acesso à educação formal. Ademais, um exemplo disso, conforme a autora Marcia Elizabeth é o fato de pessoas não falantes da língua padrão possuírem dificuldade em entender a mensagem passada pelos órgãos públicos e deixam de usufruir de inúmeros direitos.
Não obstante, o enraizamento histórico perpetua na questão. Mormente, isso decorre do êxodo rural entre diferentes regiões, ocorrendo diversas depreciações do linguajar, principalmente a do nordestino ao ser considerado como incorreto. Em decorrência disso, muitos indivíduos perderam seu sotaque ao longo do tempo, não só pela interação, mas para se encaixar no novo ambiente. Ademais, a sociedade, então, por tender a incorporar as estruturas sociais as quais são impostas à sua realidade, conforme o sociólogo Bordieu, naturalizou e reproduziu tal preceito.
Torna-se evidente, portanto, que há entraves para resolução do fator. Logo, é necessário que as escolas, por serem formadoras de opiniões, devem criar engajamento pedagógico por intermédio de palestras administradas por sociolinguísticos a fim de despertar o senso crítico nos alunos e o respeito mútuo. Além disso, os professores devem enfatizar em sala de aula a importância desse fator nas relações sociais, por meio de debates com o intuito de que o ambiente escolar seja um espaço de interação. Dessa forma, o dever social dos que enxergam será feito, pois de acordo com Saramago ’’ Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.''