Preconceito Linguístico

Enviada em 19/10/2018

Mário de Andrade, em sua obra “Macunaíma”, compromete-se em representar, no herói sem nenhum caráter, o perfil do brasileiro: multifacetado e com riqueza de repertório cultural na fala. Todavia, contrapondo-se à literatura modernista, esses atributos parecem ganhar valor pejorativo na sociedade atual ao considerar-se a incidência do preconceito linguístico nessa. Diante disso, tornam-se passíveis de discussão, hoje, os efeitos dessa conjuntura no Brasil, seja vinculada a fatores socioeconômicos ou etários.

Em primeira instância, é indubitável que o preconceito contra os desvios da norma padrão mascaram a miséria nacional. Isso porque, a aquisição de vocabulário é um privilégio dos cidadãos que tiveram condições de concluir sua formação acadêmica. Nesse sentido, é razoável argumentar que a camada menos abastada não goza de tal benefício, uma vez que, não raro, são levados a ingressar no mercado de trabalho informal desde muito cedo para garantir o seu subsídio e de seus familiares, o que acarreta, muitas vezes, na evasão escolar. Assim, já denunciava o grande Oswald de Andrade em sua poesia “Vício na fala”: “Para telhado dizem ‘teiado’/ E vão fazendo telhados”.

Igualmente, destaca-se a comunicação caótica entre as diferentes gerações. Consoante aos ideais deterministas, a época é um fator influenciador do modo de pensar e agir de determinado corpo social. Desse modo, compreende-se que a fala é mutável ao decorrer dos anos, e que nos expressamos de maneiras diferentes da que os nossos pais e avós. Porém, essa divergência pode trazer ojeriza contra a forma de falar de grupos etários distintos, o que deve, pois, ser combatido, dado que já nos alertava o renomado filósofo Jean Paul-Sartre: “a violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”.

Fica evidente, portanto, que a intolerância linguística traz reflexos deploráveis à nação verde-amarela. A fim de mitigá-los, é imprescindível que o Ministério da Educação auxilie na formação escolar de quem não teve condições para tal, por meio de um maior fomento à participação do Exame para Capacitação de Competências de Jovens e Adultos, ou ainda da Educação para Jovens e Adultos, para que essa mazela tenha a oportunidade de ascender intelectual e profissionalmente. Em segunda instância, o poder judiciário pode elaborar um projeto de lei que implicará multas aos constrangimentos motivados pela forma de falar da vítima, para incentivar que tais não tornem a ser cometidos. Dessa forma, os atributos de Macunaíma tornar-se-ão motivo de orgulho nacional.