Preconceito Linguístico

Enviada em 19/10/2018

A obra “Vida Secas”, de Graciliano Ramos, conta a história de retirantes nordestinos que fogem do castigo da seca. No enredo, Fabiano, chefe da família, sente-se como um animal por não ter domínio da lingua padrão. Essa obra literária, apesar de ser do século passado, retrata um visão mantida hodiernamente, o preconceito linguístico. Nesse aspecto, fatores políticos e socioculturais são contribuintes para esse quadro social.

A principio, sabe-se que o Brasil é um pais de várias culturas, no qual nativos, africanos e europeus contribuiram para a construção de uma vasta cultura. Contudo, ao observar o preconceito linguístico, percebe-se que mesmo com a variedade cultural, ainda há resquícios da hegemonia na sociedade. A manutenção desse preconceito, na questão politica, pode ser destacada desde a Grécia Antiga, em que os Sofistas utilizavam o domínio da língua para criar oligarquias. Analogamente, a classe política brasileira utiliza a linguagem como uma forma de sobreposição social, uma vez que pode influenciar pessoas menos favorecidas através da oratória. Nesse sentido, o pouco interesse em oferecer educação ao povo, torna-se uma ferramenta de controle, no qual o conhecimento da língua está associado aos que detém o poder.

Outrossim, um fator que fomenta tal problemática é o contexto sociocultural. Segundo Émile Durkheim, o fato social é caracterizado por ações e pensamentos exteriores coercitivos ao indivíduo. Logo, infere-se que no processo histórico brasileiro, o domínio de uma língua formal foi determinante na formação das classes e, por conseguinte, do preconceito. Em virtude disso, a existência de uma norma padrão da língua portuguesa, caracterizando-a e tornando-a homogênea, corroborou o preconceito existente, visto que as variantes da língua foram desprezadas. Sob esse viés, a construção de estereótipos e pré-julgamentos foram erguidos, ora pelo acesso precário à educação, ora pela linguagem regional. Dessa forma, pessoas de várias regiões do pais sofrem com a exclusão social, sendo hostilizadas por se expressarem de uma maneira diferente da exigida pela classe dominante.

Urge, portanto, que medidas sejam tomadas para solucionar o problema. Logo, é necessário que o Poder Legislativo crie uma lei que torne crime o preconceito linguístico, com intuito de atenuar esse impasse. Também é necessário que o MEC, junto às Secretárias de Educação realizem uma reformulação do currículo escolar, incluindo o ensino das variantes da língua, a fim de que crianças cresçam e respeitem as diferenças existentes. Ademais, cabe ao MEC a criação de campanhas elucidativas nos meios de comunicação, com objetivo de informar a população sobre o tema. Destarte, esse triste aspecto social retratado na obra Vidas Secas não fará mais parte do contexto brasileiro.