Preconceito Linguístico
Enviada em 19/10/2018
“Só sei que nada sei.” Sócrates, importante fundador da Filosofia Ocidental, colocou em cheque, com a afirmação supracitada, o verdadeiro significado de sabedoria: a humildade perante ao conhecimento. Nesse contexto, é evidente que a demonstração socrática não se manifesta nas sociedades modernas, nas quais impera a arrogância intelectual e o culto à informação, em contrapartida à desvalorização do seu uso em prol do bem comum. Certamente, como reflexo das problemáticas assinaladas e da ignorância humana em lidar com a diversidade, pode ser citado o preconceito linguístico, questão a ser vencida no Brasil.
Nessa vereda, vale ressaltar a inconstitucionalidade por parte daqueles que menosprezam o outro pelo seu modo de se expressar. Indubitavelmente, a intolerância relacionada ao uso da língua fere o direito de liberdade, do qual todo indivíduo é possuidor, e ainda pode ser definida como ato de preconceito, o qual é absolutamente repudiado pela Constituição Federal. Com base no pressuposto, infere-se que tal comportamento discriminatório deveria ser condenado pelos brasileiros. Entretanto, a popularidade de pessoas públicas que se expõe de maneira repressiva quanto ao falar de outrém é fomentada pelos milhões de visualizações e pelas muitas curtidas que muitos dos seus vídeos recebem. Um exemplo está presente no relato de uma “youtuber”, que solicita àqueles que, segundo ela, falam ou escrever errado: “Não seja burro!”.
Não obstante, faz-se necessário assinalar que a livre utilização da língua simboliza a valorização da diversidade que acompanha o processo de construção nacional. Essa liberdade foi muito utilizada pelos modernistas, que procuraram, durante e após a Semana da Arte Moderna de 1922, enaltecer a beleza do linguajar brasileiro, em toda a sua variedade, como elemento único do país. Sem dúvidas, a atual existência de intolerância linguística revela inegável retrocesso do povo brasileiro em termos de consciência sócio-cultural.
Dessa forma, resta a identificação do dever estatal de promover maior acesso popular à cultura, já que, como foi destacado, o preconceito pelo falar de alguém reflete desconhecimento por parte do intolerante. Enfim, para tanto, faz-se necessário que, juntamente do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, o Governo Federal efetive, nas escolas, o estudo cultural brasileiro, seja nas aulas de história, sociologia, artes, educação física, literatura, ou em diversas disciplinas concomitantemente. De “vossa mercê” a “vassuncê”, de “você” para simplesmente “cê”, a língua se reinventou constantemente, e o mesmo deve ser feito pelo estado com a finalidade de garantir o respeito e a admiração pelo complexo e diversificado mecanismo de expressão nacional.