Preconceito Linguístico

Enviada em 18/10/2018

Em seu poema ‘‘Evocação de Recife’’, através do seu eu lírico, Manuel Bandeira diz ‘’[…] vinha da boca do povo/ na língua errada do povo/ a língua certa do povo […]’’. Ele evidencia, dessa forma, as variações linguísticas presentes no Brasil. Algumas variantes, entretanto, são vítimas de preconceito, devido a raízes históricas contribuintes para a intolerância linguística, e isso traz sequelas sociais na contemporaneidade. Logo, é mister buscar alternativas para combater esse problema com a cooperação entre poder público e sociedade civil.

Inicialmente, a formação histórico-cultural brasileira estimulou a desrespeitarem o modo de falar alheio. Isso ocorre porque durante o Período Colonial os europeus impuseram a língua portuguesa às populações negras e indígenas, proibindo agressivamente quem falasse diferente da língua oficial. Analogamente a tal, a televisão mantém esse preconceito - que foi enraizado desde o Brasil Colônia - de forma bem explícita. Em seus programas, por exemplo, o linguajar nordestino é visto como inferior, engraçado e incorreto. Desse modo, a intolerância linguística configura-se como uma ferramenta de segregação social, pois permite que os falantes da norma culta julguem as variantes da língua, o que contribui ao empobrecimento do patrimônio cultural nacional, que são as diversidades linguísticas.

Outrossim, o desrespeito ao modo de falar traz efeitos negativos na sociedade, como a discriminação. Essa consequência é evidente quando se trata de pessoas de baixa escolaridade, que são corrigidas pelo seu modo de falar, o qual se distancia da norma culta. Carlos Bagno, linguista e escritor, explica em sua obra tal questão, relatando a subordinação da língua falada à língua escrita e que esta passou a ser um instrumento de poder e controle. Dessa forma, o desconhecimento às normas gramaticais, causada pela falta de acesso à educação de qualidade por parte dos cidadãos que falam ‘’errado’’ reflete em exclusão social e dominação política pela língua pelas classes dominantes, criando um ciclo de preconceito que gera, sem dúvidas, a discriminação.

Destarte, para superar o preconceito linguístico e seus efeitos no Brasil, cabe à mídia desconstruir a intolerância às variações da língua, por meio de vídeos com profissionais pedagógicos ensinando o valor da diversidade da fala, divulgando-os em comerciais de TV em ‘‘horário nobre’’ e nas redes sociais, a fim de tornar tal diversidade uma riqueza nacional. Ademais, é papel do Estado garantir educação, sobretudo aos mais pobres, por meio do aporte financeiro da União no investimento em rodas de leitura nas comunidades, objetivando ampliar o vocabulário das pessoas dominadas por sabedores da norma padrão, democratizando-a, assim, à todos.