Preconceito Linguístico
Enviada em 18/10/2018
Conforme o linguista Marcos Bagno, as variações linguísticas existem não somente no Brasil, mas em diversas regiões do mundo, o que acaba ocasionando estereótipos da língua e, evidentemente, a valorização de apenas um tipo. Dessa forma, as discriminações que ocorrem com a língua são refletidas na sociedade e causam, muitas vezes, a exclusão social. Esse fato pode ser evidenciado, por exemplo, na obra literária Urupês, de Monteiro Lobato.
Primeiramente, compreende-se que o modelo “gramatica normativa” amplamente divulgado e utilizado por muitas pessoas é visto como o aceitável para os bons falantes da língua portuguesa, pois se espelha na gramática utilizada por poetas literários e por pessoas que, de certa forma, são mais prestigiadas no cenário político/econômico. Por esse motivo, há discriminações quanto a forma de dialogar ou de dissertar, de algumas pessoas, pelo fato de não corresponderem ao “ideal” proposto pela gramática. Essa concepção que acaba por subjugar as línguas traz vítimas todos os dias, até mesmo presidentes da República que, por não terem completo domínio da norma padrão, são discriminados e utilizados na elaboração de sátiras, como algo cômico para sociedade.
Sob essa conjectura, vale ressaltar que Monteiro Lobato foi o responsável por criar o personagem Jeca Tatu, habitante da zona rural que sofria discriminações, também, pelo seu modo “diferente” de falar e estava quase sempre submetido à miséria e à exclusão social. Em meio a um cenário de grande rigidez com a língua, principalmente em textos literários, surgiu, em 1922, na semana da Arte Moderna, um grupo de escritores que buscavam inovar a forma de escrever as obras literárias, um dos objetivos era fazer com que todos pudessem entender e desfrutar desse “direito” que era levado apenas aos mais cultos. Essa foi uma das formas utilizadas, no século XX, para tentar diminuir as disparidades e a exclusão que surgiram a partir da própria linguagem e que até hoje, no século XXI, se faz presente.
Diante dos argumentos supracitados, compreende-se que a forma discriminada de tratar a língua é um fator decisivo na exclusão social de certos grupos. Por isso, esse tipo de preconceito deve ser melhor analisado para que se possa combatê-lo sem procrastinações. Primeiramente, os meios midiáticos poderiam fornecer mais informações sobre a importância das variantes linguísticas com o intuito de descontruir o preconceito linguístico. Outrossim, as escolas deveriam priorizar mais o assunto e difundi-lo de forma mais aprofundada, pois, como disse Manuel Bandeira: “a língua errada do povo, a língua certa do povo, porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”, evidenciando o registro coloquial como marca da nacionalidade.