Preconceito Linguístico
Enviada em 18/10/2018
No início do século XX, a Semana de Arte Moderna de 1922 buscou valorizar as variantes linguísticas de diversas regiões do Brasil, mostrando que também constituíam parte essencial da língua portuguesa. Entretanto, passados 96 anos de seu acontecimento, ainda há, no país, um forte preconceito linguístico a essas formas de expressão. Desse modo, é de suma importância a análise das causas desse cenário afim de se proporem medidas para solucioná-lo.
De início, nota-se que uma das geratrizes do problema é a valorização social dada à norma culta. Isso porque, devido a sua utilização em canais de comunicação socialmente vistos como de alto nível técnico e acadêmico, como telejornais, artigos científicos e periódicos, a variante ligada à gramática torna-se prestigiada pela população, que acaba por classificá-la como a “linguagem correta”. Consequentemente, as outras variantes, por não seguirem os valores da norma culta, são taxadas de inferiores e seus falantes discriminados. Prova disso foi a retaliação feita por vários setores da sociedade a um livro recomendado pelo Ministério da Educação e Cultura, que afirma ser correto dessas variações em contextos de fala e escrita que não há necessidade do cumprimento da norma, mostrando o papel da sociedade, que, ao preferenciar o padrão culto aos outros modos de expressão, acaba por depreciá-los.
Adicionalmente, percebe-se que o ensino escolar contribui para a perpetuação do preconceito linguístico. Assim, apesar das variantes serem representação cultural de um povo, como mostra Guimarães Rosa na obra Sagarana, ao se valer da linguagem do povo de Minas Gerais para caracterizar sua formação cultural; há a assimilação dessas, pelos sistemas de ensino, ao erro gramatical. Tal fato ocorre devido a correção de eventuais variações dos alunos, sem a orientação de que o uso dessas, em contextos em que não há a exigência da norma, é aceito e, além disso, faz parte de sua cultura. Disso decorre a geração de um preconceito à essas pronúncias, já que, na visão desse estudante, elas são erros, e não modos distintos de expressão.
Diante do exposto, urge a necessidade de se pensarem medidas para a solução do preconceito linguístico. Uma delas é a realização de parcerias entre o Estado e as mídias sociais, que possuem alto poder de divulgação de informação à população, para a criação de propagandas na televisão e nas redes sociais, visando mostrar que as variantes, por seu caráter cultural, devem ser tão prestigiadas quanto a norma culta. Além disso, o Estado deve direcionar a educação, garantindo uma mediação entre o ensino da norma culta e a utilização das variações linguísticas em determinados contextos. Só assim o Brasil valorizará sua diversificada língua portuguesa, nos moldes da Semana de 22.