Preconceito Linguístico

Enviada em 17/10/2018

É incontestável que o Brasil é um gigante miscigenado e multicultural. Nesse sentido, ainda que seja uma única nação, existem inúmeras variações que permeiam a população canarinha, dentre elas a variação linguística. Entretanto, não obstante, a fatores socioeconômicos, regionais e históricos, algumas pessoas encontram dificuldades em conviver com essas diferenças culturais. Nessa perspectiva, as diferenças devem ser superadas para que uma sociedade integrada seja alcançada.

É indubitável que o estrangeirismo - uso de expressões emprestadas de outro idioma - intensifica a problemática. A princípio, durante a colonização do Brasil, os portugueses ao considerarem-se superiores impuseram a língua portuguesa aos índios. Hodiernamente, a população tupiniquim continua a sofrer influência de outros países e diversas palavras internacionais foram incluídas no cotidiano, tais quais: outdoor, hambúrguer, delete, etc. Entretanto, termos estrangeiros são valorizados, diferentemente do que ocorre com os dialetos e regionalismos naturais brasileiros. A exemplo disso, tem-se o romance pré-modernista de Lima Barreto. Durante a obra “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” o autor defende que a língua tupi guarani deveria ser a oficial do Brasil, a fim de exaltar o nacionalismo. Contudo, recebeu inúmeras críticas na época, pois consideravam a língua tupi inferior.

Ademais, o preconceito linguístico é agravado pela incapacidade da população de se colocar no lugar do outro. Nessa perspectiva, a máxima do escritor brasileiro Paulo Leminski de que “em mim eu vejo o outro” relata o oposto do Brasil hodierno. Desse modo, devido a falta de empatia, comumente cidadãos letrados utilizam a gramática normativa como instrumento de distinção e dominação, expressando preconceito contra aqueles que não tiveram acesso ao ensino de qualidade. A título de exemplo, tem-se o caso que aconteceu em São Paulo, em que um médico debochou de seus pacientes nas redes sociais, sua publicação dizia: “Não existe peleumonia e nem raoxis”. O fato, evidencia o elitismo e a hierarquização da língua, que segrega aqueles que falam diferente da norma. Para reverter tal viés, é necessário que a população siga a premissa de Leminski, com o objetivo de atenuar o problema.

Urge, portanto, estratégias para reverter esse cenário. Para isso, o Ministério da Educação, aliado ao Ministério da Cultura, deverá desenvolver palestras em escolas, para alunos do Ensino Fundamental e Médio, por meio de entrevistas com vítimas do preconceito linguístico, bem como especialistas no assunto, que valorizem as diferenças linguísticas. Tais palestras devem ser webconferenciadas nas redes sociais dos ministérios, com o objetivo de trazer mais lucidez sobre o assunto e atingir um público maior. Por fim, é preciso que a nação verde e amarela olhe de forma mais otimista para as diferenças, pois como constatou Nelson Mandela, a educação é o melhor instrumento para mudar o mundo.