Preconceito Linguístico

Enviada em 17/10/2018

Pluralidade negligenciada

Na obra literária “Casa Grande e Senzala”, Gilberto Freyre defende que a pluralidade cultural presente no Brasil forma a identidade nacional, por isso toda forma de expressão deve ser respeitada. Entretanto, percebe-se que a valorização dos falares regionais se mostra distante, na medida em que o preconceito linguístico se perpetua e representa grave problema a ser, urgentemente, desconstruído elos cidadãos e pelo Estado.

Em primeiro plano, o assédio linguístico fragiliza a dignidade das vítimas. A esse respeito, a ONU estabeleceu que o principal direito de um indivíduo é a sua dignidade, prevista na Declaração dos Direitos Humanos. Ocorre que os frequentes discursos de ódio acerca das variantes linguísticas consideradas de baixo prestígio vão de encontro àquilo que as Nações Unidas declaram como indispensável. Assim, é incoerente que, mesmo sendo multicultural, o Brasil ainda mantenha presente o preconceito cultural.

Outro fator relevante são os esteriótipos acerca das variantes negligenciadas socialmente. Nesse contexto, o filósofo Mikhail Bakhtin ensina, em sua obra “carnavalização da sociedade”, que o riso é capaz de desconstruir um grupo marginalizado e reafirmar o preconceito. Esse problema assume contorno específico no Brasil, uma vez que a mídia costuma atribuir caráter lúdico aos falares sociais e regionais de baixo prestígio - principalmente nordestinos -, o que colabora para a opressão da linguagem e manifesta na prática a carnavalização de Bakhtin. Dessa forma, enquanto os esteriótipos mantiverem, o país será obrigado a conviver com um dos mais graves problemas para a nação verde e amarela: A exclusão linguística.

Impende, pois, que indivíduos e Poder Público cooperem para combater a intolerância linguística.  Nesse sentido, os cidadãos devem repudiar a diminuição das variantes consideradas de baixo prestígio, por intermédio de debates nas mídias sociais capazes de mitigar, com urgência, a prevalência de uma variação sobre as demais, a fim de desconstruir esteriótipos. O Ministério Público, por sua vez, pode promover denúncias contra atitudes que inferiorizam os registros da linguagem de grupos historicamente excluídos, por meio de ações judiciais avaliadas com prioridade, como deveria acontecer com todas as formas de discriminação. Essa iniciativa do MP teria a finalidade de estimular, no século XXI, o respeito a pluralidade cultural como foi proposto por Gilberto Freyre.