Preconceito Linguístico

Enviada em 17/10/2018

A língua falada, a língua escrita e a língua julgada

Em 1959 foram lançadas as primeiras tirinhas de “Turma da Mônica”, história em quadrinhos brasileira que retrata a infância de um grupo de amigos, o sucesso reverbera-se até hoje e quem lê se afeiçoa aos personagens; dentre esses, está o Cebolinha, um garoto que troca letras e sempre é motivo de chacota por isto. Escutar esse tipo de piada sobre o modo como fala é a realidade de muitos brasileiros, que, por falta de estudo ou por provir de outra região, não se sentem integrados na maneira de falar de certo estado ou ambiente.

É evidente que a língua é mutável, ela se altera perante o tempo e espaço. No Brasil, a existência de diferentes dialetos e gírias é imensa, mas, isso não impede que algumas pessoas se sintam no direito de impor o seu modo de falar a outras.

Tal desejo de uniformizar a linguagem faz com que muitos povos, músicas e até livros percam sua identidade cultural; um exemplo disso é a canção “Tiro ao Álvaro” de Adoniran barbosa que usava em suas músicas o jeito coloquial de falar dos paulistanos, em 1973 a censura grifou as palavras “tauba”, “revorve” e “artormove”, concluindo que a “falta de gosto impede a liberação da letra”, se o autor tivesse mudado estas palavras, talvez, essa composição não teria se tornado o clássico da MPB que é hoje.

Além do preconceito regional, há discriminação com o jeito de falar das camadas mais pobres da sociedade. O “falar corretamente” se tornou também uma forma de status social, fazendo assim com que indivíduos que não tiveram a oportunidade de estudo se sintam humilhados e, muitas vezes, percam oportunidades de mostrar seu potencial por pura intolerância, que, na maioria das vezes surge de alguém que também tem uma fala que não condiz com a norma culta padrão.

É irrefutável que o preconceito linguístico não tem sentido algum,  dado que toda pessoa se expressa de uma maneira própria. O MEC deve incluir no matérial pedagógico para todas as idades obras que não sejam corrigidas com a gramática normativa, conscientizando os alunos de que, apesar de se existir a forma culta de se escrever, também existe uma linguagem popular e isso não está errado. A representatividade também é importante, personagens como o Cebolinha e o Chico Bento em a Turma da Mônica faz com que crianças e adultos com certas manias e sotaques se identifiquem e se sintam mais incluídos na sociedade e mais interessados na literatura, isso ajuda os professores a levarem o interese do aluno a algo muito presente em sua vida: o próprio idioma.