Preconceito Linguístico

Enviada em 16/10/2018

A obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, conta a história de retirantes nordestinos que fogem do castigo da seca. No enredo, Fabiano, chefe da família, sente-se como um animal por não ter domínio da língua padrão. Essa obra literária, apesar de ser do século passado, retrata uma visão mantida hodiernamente, o preconceito linguístico. Nesse aspecto, fatores políticos e socioculturais são contribuintes para esse quadro social.

A princípio, sabe-se que o Brasil é um país de várias culturas, no qual povos nativos, africanos e europeus contribuíram para a construção de uma vasta identidade. Contudo, ao observar o preconceito linguístico, percebe-se que mesmo com a variedade cultural, ainda há resquícios de superioridade nesse aspecto social. A manutenção desse preconceito, na questão política, pode ser destacada desde a Grécia Antiga, em que os Sofistas utilizavam o domínio da língua para criar oligarquias. Analogamente, a classe política brasileira utiliza a linguagem como uma forma de sobreposição social, uma vez que pode influenciar pessoas menos favorecidas através da oratória. Nesse sentido, o pouco interesse em oferecer educação ao povo, torna-se um ferramenta de controle, na qual o conhecimento da língua é associado aos que detém o poder.

Outrossim, questões socioculturais são agravantes na manutenção desse problema, haja vista que, no processo histórico brasileiro o domínio de uma língua formal foi determinante na formação das classes. Em virtude disso, a existência de uma norma padrão da língua portuguesa, caracterizando-a e tornando-a homogênea , corroborou o preconceito existente, visto que as variantes da língua foram desprezadas. Sob esse viés, a construção de estereótipos e pré-julgamentos foram erguidos, ora pelo precário acesso à educação, ora pela linguagem regional. Dessa forma, pessoas das mais variadas regiões do país sofrem com a exclusão social, sendo hostilizadas  por se expressarem de uma forma diferente da exigida pela classe dominante.

Urge, portanto, que medidas sejam tomadas para solucionar o problema. Logo, é necessário que o Poder Legislativo em parceria com o Ministério da Educação (MEC), elabore uma Constituição com linguagem acessível, a fim de garantir o pleno entendimento de toda população. Ademais, é importante que o MEC crie um currículo escolar sobre as variantes da língua, a fim de ensinar a respeito da dinâmica da língua portuguesa. Além disso, é importante que os meios de comunicação divulguem, através de campanhas, a variedade linguística e cultural do Brasil, com intuito de que estereótipos sociais sejam desfeitos. Destarte, esse triste aspecto social retratado na obra regionalista “Vidas Secas” não fará mais parte do contexto brasileiro.