Preconceito Linguístico

Enviada em 19/10/2018

A fala do linguista Marcos Bagno: “Não faz sentido rejeitar a língua de 190 milhões de brasileiros para só considerar certo o que é usado por menos de dez milhões de portugueses”, incita uma reflexão sobre a norma culta da língua portuguesa em contraste com a oralidade. Assim, a supérflua discriminação linguística inerente ao povo brasileiro tanto revela o autoritarismo da gramática normativa, quanto escancara a continuidade da existência da crença em linguagens certas e erradas. Logo, a inferiorização de dialetos fomenta a exclusão social.

Diante das variações linguísticas que compõem a língua oficial brasileira, o menosprezo de linguajares populares assola a maioria dos cidadãos, à medida que as variantes provêm da regionalização, do contexto sociocultural, da faixa etária - uma infinidade de fatores que demonstram a amplitude da nação verde e amarela. Nesse viés, Marcos Bagno retrata a manutenção da gramática tradicional como um elemento de dominação de uma parcela da sociedade sobre as demais. Dessa forma, a gramática normativa espelha uma pátria repressora, e não culta.

Sob a ótica da discriminação de dialetos da língua portuguesa, mostra-se evidente a errônea classificação da língua falada em certo e errado. Por essa perspectiva, o poema de Manuel Bandeira: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros/Vinha da boca do povo na língua errada do povo/Língua certa do povo/Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”, demonstra a relevância do português falado para o estabelecimento de comunicação, uma vez que a língua é uma ferramenta para o diálogo - usada, inclusive, pelos considerados analfabetos e semianalfabetos, desconhecedores da norma culta.

Urge, pois, a fim de evitar a institucionalização do preconceito linguístico nas escolas e, por consequência, na sociedade, que o Ministério da Educação, em conjunto com o Ministério da Cultura, disponibilize cursos de aprofundamento em linguística para os professores de todos os segmentos da educação básica. Dessa maneira, os docentes estarão mais preparados para lidar com questões referentes à discriminação social através da linguagem - desencorajando o assédio linguístico. Logo, educar é respeitar!