Preconceito Linguístico

Enviada em 14/10/2018

Em seu poema ‘‘Evocação de Recife’’, através do seu eu lírico, Manuel Bandeira diz ‘’[…] vinha da boca do povo/ na língua errada do povo/ a língua certa do povo […]’’. Ele evidencia, dessa forma, as variações linguísticas presentes no Brasil. Algumas variantes, entretanto, são julgadas como incorretas, o que contribui ao preconceito delas. Desse modo, a formação cultural do país contribuiu para a intolerância linguística, e hoje traz sequelas sociais. Logo, é imperativo buscar alternativas para tal problemática.

Primeiramente, o preconceito linguístico possui raízes históricas que estimulam desrespeitar o falar alheio. Isso ocorre devido às imposições da língua portuguesa pelos europeus sobre milhares de populações indígenas durante o Período Colonial, cristalizando-a como língua oficial e transformando as demais em um erro. Esse preconceito, por sua vez, é mantido atualmente na medida em que o linguajar nordestino explícito nos programas televisivos é visto como inferior e até mesmo servindo de motivo de piada. Nesse sentido, torna-se válido enaltecer a norma padrão da língua escrita, mas é essencial valorizar as variações linguísticas regionais, temporais e culturais, pois sua função mor é a comunicação.

Outrossim, o desrespeito ao modo de falar traz efeitos negativos na sociedade, como a discriminação. Isso é evidente quando se trata de pessoas de baixa escolaridade, que são corrigidas pelo seu modo de falar o qual mostra-se diferente daqueles que conhecem a norma culta. Carlos Bagno, linguista e escritor, explica em sua obra tal questão, relatando a subordinação da língua falada à língua escrita e que esta passou a ser um instrumento de poder e controle. Assim, é de conhecimento geral que o desconhecimento à norma culta, causada pela falta de acesso à educação de qualidade reflete em exclusão social e dominação política pela língua por parte das classes dominantes sobre aqueles que falam ‘’errado’’.

Fica claro, então, que o preconceito linguístico e seus efeitos devem ser superados no Brasil. Para tanto, cabe à mídia desconstruir a intolerância às variações da língua, por meio de vídeos com profissionais pedagógicos ensinando o valor da diversidade da fala, divulgando-os em comerciais de TV em ‘‘horário nobre’’ e nas redes sociais, a fim de tornar tal diversidade uma riqueza nacional. Ademais, é papel do Estado garantir educação, sobretudo aos mais pobres, por meio do aporte financeiro da União no investimento em rodas de leitura nas comunidades, objetivando ampliar o vocabulário das pessoas dominadas por sabedores da norma padrão, democratizando-a, assim, à todos.