Preconceito Linguístico

Enviada em 25/10/2018

“Não há saber mais e saber menos, há saberes diferentes”, essa frase , de Paulo Freire, tem a capacidade de dissecar e promover o fim de uma série de preconceitos. Entretanto, no Brasil Contemporâneo, tal afirmativa não ultrapassa a linha de sociedade ideal, visto que mesmo com diversas variantes da língua, grupos seletivos determinam-se sábios o suficiente a ponto de ridicularizar aos que não dominam de forma perspicaz a normal culta nacional. Por isso, faz-se necessária a reflexão de como o capitalismo e o modelo pedagógico vigente atuam como perpetuadores do preconceito linguístico.

A priori, é evidente que o capitalismo determina grupos seletos que detêm poder e influência na sociedade. Segundo Marcos Bagno, Linguísta brasileiro, “O conhecimento da gramática normativa é usada como instrumento de distinção e dominação pela população culta”, tal frase correlata a sociedade contemporânea, visto que a norma culta foi moldada e articulada pela parcela economicamente dominante. Ademais, esses grupos praticam julgamentos depreciativos e tendem a marginalizar , principalmente, pessoas que moram no interior, pobres e de baixa escolaridade, dado que o preconceito linguístico é uma face do preconceito social. Dessa forma, mesmo com o dinamismo da língua brasileira a perpetuação do preconceito de variantes da linguagem torna-se mordaz e difícil de combater.

Outrossim, atrelado a questão do capitalismo, o modelo pedagógico em vigor é um empecilho para a solução da problemática.  De acordo com Gilberto Freyre, " Sem um fim social o saber se torna uma das maiores futilidades", essa assertiva , entretanto, não possui validação ao se tratar do modelo escolar atual, pois ao invés de provocar a reflexão sobre as diferenças, a preocupação do ensino circunda a ideia de projetar o aluno para passar em provas e concursos e , assim, torna-se obrigatório o domínio da norma culta com penalização para quem não a segue. Por conseguinte, grupos de baixa escolaridade são cada vez mais alçados do modelo visto como correto e , por isso, são marginalizados.

Urge, portanto, a necessidade da mudança dos paradigmas acerca da língua nacional. Para isso, linguistas e sociólogos ,em consonância com a mídia, devem promover campanhas - via rádio, televisão e jornais - com explicações e exemplos acerca das variantes linguísticas , com o uso de quadrinhos e textos com função referencial sobre o assunto a fim de promover o conhecimento e , dessa maneira, diminuir o preconceito para com o desconhecido. Ademais, cabe ao Ministério da Educação implementar na grade curricular dos ensinos fundamental e médio - nas escolas públicas e privadas - a matéria de ética e cidadania com o intuito da discussão, debate e reflexão no que tange aos preconceitos , não somente da linguagem mas , também, de cunho social,racial de gênero.  Dessa forma, a dignidade da pessoa humana, conforme a constituição, se tornará tangível ao tecido nacional brasileiro.