Preconceito Linguístico

Enviada em 14/10/2018

Os poetas do primeiro modernismo brasileiro, profundamente nacionalistas, buscavam nas variações de dialeto regionais uma fonte de inspiração poética. Entretanto, as relações entre a sociedade e as diversidades da língua raramente são tão férteis e amistosas. Nessa conjuntura, faz necessário entender os operadores que desencadeiam os preconceitos linguísticos e buscar soluções para essa problemática histórica e atual.

Em primeiro lugar, é importante salientar que o preconceito linguístico tem como alicerce uma perspectiva retrógrada e difundida sobre a língua. Segundo tal perspectiva, a linguagem é única e imutável - representada pela gramática normativa - e seus desvios são erros. Contudo, para Saussure, fundador da linguística moderna, as línguas são entidades em permanente mutação junto ao Homem, tanto no tempo como no espaço, e essa característica é o que sustenta sua eficiência. Depreende-se, portanto, que as variações linguísticas não são apenas inerentes ao idioma, como também importantes para sua manutenção. Nesse contexto, a visão de imutabilidade do idioma, que desencadeia o preconceito linguístico, torna-se extremamente infundada.

.               Além disso, as práticas  preconceituosas em relação a a variedade da linguagem estão intrinsecamente vinculadas as desigualdades reinantes na sociedade. Na ótica marxista, as relações da coletividade são interpretadas como disputas de classes econômicas, sendo a classe dominante ditante sobre os códigos de conduta. Nesse cenário, as variantes linguísticas das populações marginalizadas são socialmente imputados como errôneas, produzindo o preconceito linguístico. Um exemplo disso é a discriminação realizada pela população do Sul e Sudeste do Brasil, regiões economicamente mais ricas, em relação ao dialeto nordestino brasileiro, região historicamente inferiorizada e mais pobre. Evidencia-se, consequentemente, a forte conectividade entre o preconceito linguístico e a disparidade social.

Diante dos fatos supracitados tornam-se explícitas as causas da problemática do preconceito linguístico na sociedade. Desse modo, afim de subverter esse quadro preconceituoso, cabe ao Ministério da Cultura a veiculação de peças publicitárias, em parceria com as diversas mídias, que desmistifiquem a falsa noção de superioridade da gramática normativa e promovam a perspectiva moderna da mutabilidade da língua, atingindo todos os setores da coletividade. Ademais, é imperante ao Ministério da Educação a inclusão dos estudos das variedades linguísticas, de maneira mais intensiva à ofertada hodiernamente. Com essas e outras medidas, talvez, a sociedade será semelhante aos poetas modernistas brasileiros: vendo na diversidade de seu idioma uma fonte de inspiração.