Preconceito Linguístico
Enviada em 13/10/2018
Segundo afirmou o gramático Evanildo Bechara: “Precisamos ser poliglotas em nossa própria língua”. Esse pensamento, no entanto, distancia-se hoje da mentalidade brasileira, visto que o preconceito linguístico predomina no país. Nesse sentido, nota-se que a população desconhece, ou nega-se a entender, a importância necessária das variações da linguagem para uma melhor comunicação.
Em um primeiro momento, cabe ressaltar que os indivíduos não fazem a diferenciação entre língua e gramática normativa. A norma culta tem por finalidade estabelecer regras para a linguagem, e por conseguinte, o que difere dessa padronização é considerado, por muitos, como forma “errada” ou “inferior” de falar, entretanto, no cotidiano o linguajar é dinâmico e variável, ou seja, depende do contexto social, histórico, regional e etário em que o falante está inserido. Sob essa ótica, pode-se citar o pensamento do educador Paulo Freire, pois defende que “Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes”. Desse modo, faz-se necessário instruir os brasileiros de que o dinamismo do português contribui para uma melhor comunicação entre os indivíduos.
Evidencia-se, ainda, que tal descriminação linguística gera exclusões. Isso ocorre porque tem-se por parâmetro de “correto” a gramática, a qual nem todos os brasileiros tem igual acesso, logo as gírias, contrastes na fonética e o palavreado popular, sobretudo, dos grupos mais pobres, são inferiorizados, muitos ainda passam por situações de constrangimento e humilhação só por causa de sua fala, fator que ratifica uma segregação social. Nesse contexto, é necessário ressaltar que o degrade comunicativo é um fator intrínseco à língua, impossível de se controlar e fundamental de existir para que se facilite a interação humana. Sendo assim, propostas como a de Oswaldo de Andrade, autor modernista, a qual consistiu em empregar a linguagem coloquial em seus poemas a fim de valorizá-la, precisam ser difundidas.
Portanto, é imprescindível que as escolas orientem seus professores de Língua Portuguesa a abordem em suas aulas sobre a importância e o motivo da língua estar em constante mudança, por meio da utilização de poemas do Modernismo em saraus, com o objetivo de instruir a nova geração a não reproduzirem tal preconceito. Em consonância, influenciadores digitais podem elaborar vídeos, todos compartilhados em redes sociais, com vítimas que sofreram esse tipo de discriminação, a fim de relatarem como se sentiram e os danos causados por essa prática desumana, com o intuito de alertar aos brasileiros sobre as consequências sociais danosas desse ato. Afinal, como disse o escritor alemão Frank Kafka: “A única coisa que temos de respeitar, porque ela nos une, é a língua”.