Preconceito Linguístico

Enviada em 13/10/2018

O ser humano, por possuir característica social, realiza amplamente a comunicação, utilizando-se, para isso, da linguagem. Para que melhor ocorra esse processo, é comum que as sociedades adotem uma norma padrão, dita também como culta. Ocorre que, seja pela baixa escolaridade, pelas características socioculturais ou pelo uso cotidiano diferir da norma, é comum que as pessoas tangenciem a regra. Esse desvio, por si só, não chega a ser causa de preocupação. Contudo, não são raros os casos de preconceitos, discriminações e humilhações sofridas por aqueles que não seguem esse padrão. Trata-se do preconceito linguístico, que, além de ser ofensivo, abre portas para outros preconceitos, exigindo, desta forma, que se tomem medidas para combatê-lo.

Em primeira análise, é preciso compreender as raízes históricas desse problema: o analfabetismo no Brasil. De acordo com o IBGE, em 2017 o país ainda possuía cerca de 12 milhões de analfabetos. Tal situação está intimamente ligada ao processo de colonização do país e às políticas sociais adotadas (ou não) desde então. Fica visível que a sociedade brasileira é segregada entre aqueles que têm estudos e os que não têm. Numa sociedade tão heterogênea, essa diferença abre espaços para que ocorram as discriminações, principalmente por parte dos que tiveram acesso aos estudos e não compreendem a diversidade cultural e social existente no país.

Da mesma forma, é preciso perceber que além do nível de escolaridade, a população difere regionalmente: diversas culturas, costumes, sotaques e tantas outras características existem e coexistem ao longo do território brasileiro. Infelizmente, é comum a sátira do modo de falar do sertanejo, do nordestino, do gaúcho, do caipira, etc. até mesmo em programas de televisão, por meio de anedotas e trocadilhos. Num primeiro instante, isso pode parecer ingênuo, mas interioriza que aqueles modos de falar e de se comunicar são passíveis de riso, são inferiores. Trata-se de um preconceito linguístico disfarçado, escondido sob a sombra do humor, que abre porta para outros preconceitos, como a xenofobia e o racismo.

Urge, portanto, que se adotem mecanismos para combater esse preconceito que não é apenas linguístico, mas também social. Para isso, é papel da escola, enquanto instituição socializadora, que ensine por meio das aulas de português sobre as variantes linguísticas e a diversidade do falar do povo brasileiro. Do mesmo modo, cabe às emissoras de televisão, em parceria com o Ministério da Educação e da Cultura, a transmissão de programas (debates, novelas, seriados) que promovam a discussão e a valorização das diferenças culturais. Combate-se, desta forma, o grande problema, que não está no “falar errado”, mas em não compreender que esse falar também faz parte da nossa cultura.