Preconceito Linguístico
Enviada em 13/10/2018
Patativa do Assaré foi um poeta e repentista responsável por representar a cultura popular nordestina no século XX. Com linguagem simples e marcada por regionalismos linguísticos, isto é, expressões típicas de uma determinada região, Patativa teve seus acervos divulgados e reproduzidos nacionalmente. Entretanto, a discriminação linguística é, ainda hoje, perpetuada na sociedade devido a valorização da linguagem culta, prevista pela gramática normativa, desde a sua imposição no currículo escolar até a exclusão social de quem não a domina. Portanto, o preconceito linguístico deve ser combatido, de forma que sejam reconhecidas todas as variedades linguísticas no território nacional.
Em primeira análise, é válido ressaltar que a língua é uma construção humana, que é aprendida nos primeiros anos de vida, praticada e exercitada nos anos seguintes. Dessa forma, a linguagem é dinâmica, e deve ser reforçada pela alfabetização e leitura. Porém, o trabalho realizado nas escolas é de uniformização linguística, pois os alunos iniciam a escolarização com formas distintas de linguagem e são submetidos ao mesmo processo de aprendizagem das regras gramaticais e adequação. Por certo, tal metodologia de ensino é improgressivo, devido a predominância da forma coloquial da língua no dia a dia, a maneira falada é espontânea e cumpre seu papel de comunicação.
Segundo o linguista Marcos Bagno, os diferentes modos de falar constituem elementos fundamentais da identidade cultural de uma comunidade e dos indivíduos e, portanto, devem ser valorizados pela sociedade. Todavia, a obrigatoriedade de adequação gramatical é um fator de exclusão social e intolerância com os diferentes regionalismos da língua. Ainda que, autores como Patativa do Assaré, Graciliano Ramos ou Ariano Suassuna tragam para a literatura a representação de tais variedades linguísticas, a forma oral de expressão segue como marca de escolaridade e determina, de maneira preconceituosa, a capacidade do indivíduo.
Diante do exposto, fica evidente a necessidade de reformulação do currículo escolar, de forma que interrompa o ciclo da valorização de determinadas variantes e exclusão das outras. Portanto, o trabalho deve ser iniciado nas escolas, com incetivo dos Governos Federais e Estaduais, de maneira que sejam reunidos linguistas e pedagogos em debates que tratem da realidade da educação formal nas salas de aula. Devem ser consideradas, por exemplo, novas formas de introdução ao estudo da língua, projetos de pesquisa acerca da construção antropológica da linguagem e, ainda, atividades de capacitação e orientação para professores, para que sejam abordadas novas posturas diante do aluno. Dessa forma, países extensos e ricos culturalmente irão aprender, desde o ensino básico, a valorizar suas particularidades regionais, reforçando a importância da identidade de pertencimento.